Y.

Não vos quis impressionar.

  • O Figurante

    Mateus Solano. O Figurante. Que peça, que ator, que entrega!

    “O Figurante” é um monólogo, encenado por Matheus Thiré, sobre um ator frustrado que passa os dias a fazer figuração na televisão, vivendo dos devaneios sobre a profundidade que as suas personagens, por mais pequenas que sejam, deveriam carregar.

    É uma premissa simples para uma peça extremamente exigente. Não só pela “solidão” em palco e pela complexidade do texto, mas pelo caráter incrivelmente físico que o papel exige. Mateus se entrega de forma genial, revelando uma faceta que eu desconhecia. É impossível não pensar em Jim Carrey, outro génio na arte da fisicalidade. Sinceramente, pese embora a vasta obra do americano nessa onda, a nível de talento puro, eu acho que a coisa dá mesmo empate técnico.

    Foi também muito bom assistir numa sala mais “intimista” como o Teatro Maria Matos; sinto que a imponência e a distância de um Tivoli acabariam por diluir o impacto que a presença forte do ator provoca. É uma performance muito emotiva, do oito ao oitocentos, com drama, humor e, literalmente, suor (dentro de um fato completo, ele sai do teatro encharcado!) e lágrimas.

    Depois de Lisboa, a peça vai seguir em digressão pelo país durante os próximos meses. Vejam enquanto há oportunidade.

  • Aveiro

    Tentando manter a tradição iniciada no ano passado, arrancamos o ano com o pé na estrada. Desta vez o destino escolhido para o dia 1 de Janeiro foi Aveiro, onde nunca tinhamos ido juntos, e onde eu não ia há mais anos do que me lembro, portanto é como se fosse a primeira vez.

    Não tendo sido os dias de clima mais simpáticos, sendo que a chuva foi mais ou menos uma constante, ainda assim acabamos por circular numa boa contramão do clima: escapámos aos dilúvios que caíram na nossa região e apanhámos um tempo bem mais gerível.

    Na ida, fizemos um desvio estratégico em Alcobaça para almoçar no Restaurante Landim. É um sítio incrível, de comida caseira com um toque moderno de autor, onde grande parte dos pratos (conforto puro!) são confecionados em forno a lenha à nossa vista.

    Não ficamos hospedados exatamente no centro de Aveiro, mas sim em Ílhavo, no Hotel Ílhavo Plaza, muito em conta para a qualidade que tem, incluindo um bom pequeno almoço e um SPA em que a piscina é realmente quente (nem sempre acontece).

    O centro de Aveiro continua lindíssimo. É fácil perceber o apelido de “Veneza portuguesa”, mesmo sem gôndolas. Por lá reinam os tradicionais Moliceiros, mas, com receio que a chuva engrossasse, optámos por não navegar. Em vez disso, fizemos um workshop de Ovos Moles na Oficina do Doce. Valeu muito a pena, não só pela gulodice final, mas para aprender a história dos ovos, da região e da doçaria conventual portuguesa.

    O tempo agreste também não nos demoveu de espreitar as casinhas coloridas da Costa Nova, passear no paredão e comer uma boa tripa – não a animal, mas a doce: uma espécie de crepe quadrado, mal cozido, enrolado e recheado à escolha do freguês. Bom demais.

    Tivemos pena de não conseguir visitar o Centro Ciência viva, que estava encerrado nos primeiros dias do ano, ficou na lista para uma futura visita.

    Pertinho do Hotel e no dia de saída visitamos também o Museu Marítimo de Ílhavo, uma muito agradável surpresa. Além do ênfase nas embarcações e na história da pesca do bacalhau, tem um aquário com bacalhaus (coisa rara de se ver “fresca”) e uma colecção de conchas incrível.

    Finalmente, no caminho de regresso, conseguimos finalmente (com reserva prévia), comer o que foi de fato o melhor leitão das nossas vidas, no Mugasa, em Sangalhos. Se me perguntarem o que este leitão tem de diferente, nem sei explicar bem, mas basta a primeira garfada e a explosão que ela causa para se perceber.

    O que se come, o que se bebe, o que se viaja, é o que se leva desta vida.

  • Homem Com H

    Eu quero é botar, meu bloco na rua. É com este somzaço, pela voz do próprio, que termina este filme, que é não só história, mas também uma bonita homenagem à carreira e ao talento incríveis de Ney Matogrosso, que aos 84 anos segue firme e com muito mais energia que muita gente jovem!

    Ao contrário de outros biopics, é também a voz dele que vamos ouvindo nos vários momentos musicais do filme, e não a do ator que o interpreta, mas isso não tira grandeza nenhuma à performance entregue por Jesuíta Barbosa, uma força da natureza representando outra.

    A fórmula é mais ou menos básica e comum, começando na velha história da infância e da relação conturbada com o severo pai militar, até à emancipação, entrada na banda Secos e Molhados, partida e trabalho a solo, pontuada também pela ditadura, pela epidemia da SIDA nos anos 80, e pela inevitável relação com outra lenda, Cazuza.

    Pegando talvez um pouco leve demais naquilo que sabemos – ou imaginamos – que foi a loucura dessa era (um pouco à imagem do que acontece no ainda mais famoso biopic de Freddie Mercury), não deixa de entreter e emocionar, pois é bem produzido, bem interpretado e, no final de contas, o que vemos aqui é a história de alguém maior que a vida.

    Vale para quem é fã e para quem não conhece, desfrutar do prazer de descobrir mais. Confesso que eu próprio desconhecia certas músicas ou momentos incríveis, como o poema Rosa de Hiroshima, de Vinicius de Moraes, ou Requiém de Matraga, de Geraldo Vandré, que ganham uma vida absurda na sua voz.

    A rever e a reouvir, sempre.

  • Porto

    Aproveitamos a peça Dois de Nós para fazer uma pequena escapadela de fim-de-semana ao Porto, ou aproveitamos a escapadela para ir ver a peça, já não sei bem. O que é certo é que conbinou tudo muito bem para celebrarmos 15 (!) anos de casados com esta viagem.

    Estranhamente, só tínhamos estado no Porto em passagem de outras andanças, e nunca tinha calhado pararmos a sério para desfrutar desta bela cidade. Não só isso está corrigido, como fomos muito bem acolhidos a todos os níveis, num fim de semana frio, mas com um tremendo sol iluminando toda a incrível paisagem.

    Ficamos alojados num dos apartamentos Oporto Comfort Dom Hugo, na rua do mesmo nome, bem no centro histórico e um excelente ponto de partida, a pé ou de metro, para vários dos principais pontos turísticos.

    Pertíssimo do cais da ribeira, mas com o detalhe do percurso ser composto por trilhões de escadas e ruas íngremes, portanto convém mentalizar, preparar as pernas e o folêgo. Mas é um caminho que vale cada passo. O Porto é de fato uma cidade mística e, não querendo desdenhar da capital, apesar de ter também turismo massivo, consegue ainda manter um carácter muito mais autêntico e local do que Lisboa, na minha opinião.

    Um amigo local me presenteou com duas recomendações de restaurantes que aproveitamos e adoramos: O Rápido (em homenagem ao comboio, e não à velocidade do serviço), com uma comida bem típica, de conforto e de qualidade caseira, e o Brasão, para uma imperdível Francesinha. Este último tem várias casas, e experimentamos a do Coliseu, mesmo a jeito da peça.

    Tivemos pena de não conseguir entrar na Livraria Lello, sempre com filas tremendas, e de não termos reparado que o mercado do Bolhão fechava ao Domingo, precisamente quando planeamos visitá-lo! Coisas de quem vem da Margem Sul do Tejo e acha que todos os mercados só fecham à segunda…

    Bamos ter que boltar.

  • Dois de Nós

    Depois de Baixa Terapia e Tribos, Dois de Nós é a terceira peça de António Fagundes que fomos assistir – desta vez esticando um pouco a corda e indo até ao Coliseu do Porto, uma das cidades com que a troupe brindou Portugal nesta tournée.

    A sinopse da peça não revelava muito sobre o que íamos encontrar, e ainda bem, porque o efeito surpresa amplia sempre a experiência do espetáculo. Só sabíamos que dois casais de diferentes gerações iam se encontrar num quarto de hotel.

    À medida que a peça se desenrola, percebemos que os dois casais são, na verdade, as mesmas pessoas em momentos distintos da vida – relembrando, discutindo e debatendo sobre acontecimentos do passado e o que poderia ter sido feito para evitar os erros cometidos e as consequências do futuro.

    Um texto absolutamente brilhante, entregue com maestria – com muito humor, mas também com perspetivas que despertam outro tipo de emoções e reflexões, que acabam por nos acompanhar muito para além do que vemos em cena.

    Já falei do António, mas todo o elenco está absolutamente incrível, sendo que se tivesse que destacar alguém, seria mesmo Christiane Torloni, que nunca tinha visto ao vivo e que tem a personagem mais forte da peça.

    “Enquanto há amor, cuida dela” é uma das frases-chave relembradas pelas personagens. Enquanto houver António Fagundes e teatro, que estejamos lá para assistir.

  • Da Weasel – Sol da Caparica 2025

    Este não podia falhar. Para mim, a melhor banda portuguesa. A que acompanhou e marcou infância, adolescência, vida adulta. Ressurgida e reanimada, e a jogar em casa, na deles e na minha.

    E que show, meus senhores. A idade passa por eles, mas não pesa – quanto muito soma à tremenda presença de palco que tem. Sem mega produções ou coreografias, mas muita energia, carisma, e nos rostos aquela alegria genuína de ainda andarem nisto há tanto tempo e ainda arrastarem multidões de gerações várias.

    Não só o fazem com esse sorriso na cara, como não se ficam por entregar serviços minímos (que provavelmente já satisfariam toda a gente) – duas horas de concerto, non-stop, puxando o público para cima e controlando o ritmo através do seu vasto repertório, da porrada ao romantismo, do protesto ao puro prazer de dançar.

    Vimos também os clássicos Mundo Segundo ,que entregaram um show excelente, trascendendo o tamanho do palco secundário em que tocaram.

    Dou-lhe com a alma, até que a alma me doa..

  • Golfinhos na Baía de Setúbal

    É daquelas coisas em que nem paramos para pensar, mas não fazia sentido nenhum já termos feito vários passeios de barco noutros países e nunca termos parado para fazer isso na incrível baía de Setúbal.

    Escolhemos a Dolphin Bay, e foi uma viagem muito boa. Eles têm uma particularidade interessante: garantem sempre a observação de golfinhos – se não acontecer numa viagem, oferecem um voucher para remarcar gratuitamente noutra.

    Mas aconteceu! Não vimos um grupo muito grande (há 28 golfinhos “registados” na região), mas foi incrível. Estavam claramente alimentados, porque a certa altura havia um cardume gigante de peixes à vista e eles nem lhes ligaram nenhuma, só andavam a “passear” e a saltar à volta do barco. Os guias foram explicando que existe um tempo máximo e um número limite de barcos que podem estar com os golfinhos, para não os incomodar, e que esse tempo pode até ser menor dependendo do “humor” deles.

    A tripulação é toda muito prestável, fluente em várias línguas, e ainda nos ofereceram aquele moscatelzinho de lei no final da viagem.

    Nota à parte: mesmo que não tivéssemos visto golfinhos, já valeria o passeio só pela vista da serra da Arrábida. Não fosse a água ser tão gelada, estaria facilmente no campeonato das Maldivas.

  • Olivia Rodrigo – Madcool Festival 2025

    A minha filha mais velha é muito fã da Olivia Rodrigo. Este ano ela veio até ao NOS Alive, e eu ia cometendo um vacilo gigantesco -ofereci-lhe bilhetes para esse dia e, por descuido, marquei as nossas férias para Menorca exatamente na mesma data!

    Felizmente consegui dar a volta, porque logo a seguir a Lisboa ela seguiu para Madrid, e nós fomos juntos, para compensar a ausência em “casa”.

    Ficámos no hotel Vértice Roomspace, que é literalmente na rua do festival, a uns 5-10 minutos da entrada. Mais cómodo para quem vai só para o festival é impossível. O hotel é básico, mas confortável e com um preço bem justo para o que oferece.

    Sobre o festival em si: não é um recinto muito grande, o que para mim é uma vantagem – é fácil situarmo-nos e saltitar de um lado para o outro. A zona da restauração é bem servida, variada e com preços menos absurdos do que tenho visto em Portugal.

    Sem ser a Olivia, vimos o Finneas, que deu um show simples mas muito bom, e parte dos Glass Animals, que transmitem uma energia incrível também. Dispensámos os 30 Seconds to Mars, porque não simpatizo muito – nem com a música nem com a figura do vocalista.

    Agora, sobre a figura principal: ela é, de facto, um poço de talento incrível, especialmente se tivermos em conta que tem só 22 anos. Ela canta (bem), grita (muito bem), toca tudo o que é instrumento, representa, e puxa muito, muito pela legião de fãs que tem – e não é à toa.

    O que mais me surpreendeu foi que não eram apenas adolescentes e jovens a cantar de cor e salteado – eram em grande parte as mães (pais também, mas menos) a gritarem em plenos pulmões junto com filhos e filhas, numa comunhão bem comovente. Excelente também o facto de toda a banda ser feminina, e igualmente talentosa.

    Pode-se não gostar, pode-se criticar a originalidade, mas o talento da miúda é inegável – é uma força e, até ver, um exemplo incrível para toda uma geração.

  • Menorca

    Este ano, para as férias de verão, escolhemos Menorca que, apesar do nome, é a segunda maior ilha balear, sempre ali na sombra da badalada vizinha Mallorca.

    Não consigo fazer uma comparação justa porque em Mallorca só passámos dois dias há uns anos, meio à pressa, enquanto aqui foi uma semana inteira, com tempo e carro para explorar como deve ser. Para o nosso gosto, Menorca bateu certo com o que procuramos — Mallorca pareceu-nos mais caótica, noturna, cheia de pessoal jovem numa onda de avacalhar; Menorca, mais calma e familiar, no ritmo certo.

    Começando por essa parte do carro – apostamos numa rent-a-car local, a Doncars, e foi uma aposta ganha – nada de stress com cartões de crédito ou cauções (todos os alugueres vêm com seguro completo), estavam à nossa espera à porta do aeroporto e, para devolver, foi só deixar o carro no parque. Fácil, como se quer.

    Ficamos em Son Parc que, mais uma vez, encaixou na nossa onda: relativamente perto do aeroporto, acesso fácil a qualquer lado da ilha, uma praia excelente e tranquila, e com o básico à mão (supermercado, restaurantes, etc). Alojamo-nos nos Apartamentos Playa Parc, uma espécie de apart-hotel modesto, mas que faz parte de um grupo com outros hotéis ali perto, e dá acesso aos espaços comuns de todos (piscinas, mini-parque aquático, salões de jogos, etc).

    O acesso à praia de Son Saura é uma curta caminhada, e quase que dava vontade de ficar só por ali, mas acabamos por explorar uma praia diferente todos os dias (e ainda ficaram várias por ver). Privilegiámos as de acesso mais fácil, mas mesmo essas eram de cair para o lado – natureza linda, areal branquinho, e uma água cristalina daquelas que não apetece sair.

    Não houve uma única de que não gostássemos – Cala Galanda, Son Bou, Cala Macarella… todas brutais. Mas a nossa preferida foi Cala En Porter: pequenina, com acesso fácil (quase até à areia de carro), e com uma tasca de tapas mesmo ali ao pé, ótima e com preços justos. Comemos sempre muito bem – bem no sentido da alma, porque a parte saudável e de manter a forma também tirou férias.

    A Ciutadella de Menorca também vale a visita. Tivemos a sorte de apanhar um dia menos solarengo e deu para passear na boa sem derreter. Estacionar é chato, mas a zona da Marina é mais calma (e bonita), e depois é uma caminhada curta até ao centro.

    Outro passeio que também vale a pena é no porto de Mahon, no barco com fundo transparente. Há várias empresas que fazem o passeio, nós fomos na Yellow Catamarans, e superou as expectativas. Apesar de ser apenas à volta do porto, o porto em si é grande – na verdade é o maior porto natural do mediterrâneo – tem muita história para contar, e uma variedade imensa de peixes à entrada para o oceano, que formam um espectáculo incrível pelas tais janelinhas.

    Resumindo – praias espetaculares a uma curta distância de avião, pouca confusão (pelo menos em Julho), uma semana de sonho, não podia pedir muito mais.

  • Todo partido

    Eu? Não, este blog.

    Como qualquer um pode perceber, a frequência com que actualizo esta página já teve (muito) melhores dias.

    Um conjunto de atualizações automáticas das versões do wordpress e do PHP partiram o template que eu usava aqui há vários anos, e tive que alterar para o tema padrão, até ter um tempinho para resolver.

    Não está horrível, mas também não está completamente funcional – não inclui algumas das coisas que eu gosto de ter aqui para navegar (categorias), as citações que curto ter no cabeçalho, etc. Sei que isto provavelmente só interessa a mim próprio, mas é o suficiente para me chatear e prometer resolver!