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what did I miss?

Etiqueta: christopher nolan

  • A Odisseia

    Ponto número um: o filme é, sim, imperdível, mesmo que no fim não se goste dele. Quanto mais não seja pelo hype. Não o hype “de hoje em dia”, de estar nas redes sociais e querermos perceber os memes, mas aquela velha sensação de outros tempos, de quando estreava um verdadeiro blockbuster, como um Titanic da vida ou um derradeiro episódio de novela da Globo, e de todos, em comunhão, termos um tema para comentar no mundo real. Sinto que isso é uma raridade.

    Eu adorei, sob vários ângulos. Aborrece-me que se critique faltar este ou aquele aspecto da obra original, ou esta personagem ser desta ou daquela cor. É uma adaptação, são simplesmente actores, é uma obra de entretenimento e não um documentário (de qualquer das formas, seria estranho haver um documentário que incluísse sereias e ciclopes).

    Dizer que “são simplesmente actores” é redutor – são tremendos actores e actrizes, todos, e há pequenos momentos simplesmente brilhantes com personagens principais e secundárias.

    Em vários outros aspectos, onde realmente interessa, o realizador empregou um cuidado imenso para que o filme fosse verdadeiramente uma obra de arte. A banda sonora, por exemplo, é feita com recurso a réplicas de instrumentos da época, e é completamente diferente de tudo o que já ouvimos em filmes épicos. É neste tipo de coisas que reside a esperança na criatividade humana – uma inteligência artificial qualquer da vida pegava nisto e fazia uma mistela decalcada de filmes do Hans Zimmer.

    Acho que vale a experiência em IMAX, quanto mais não seja porque foi para ela que o filme foi pensado e “prensado” minuciosamente. Nota mental e à parte para mim: fazer um jejum de líquidos da próxima vez que for ver um filme de 3 horas sem intervalo. Senti-me o próprio Odisseu, em sofrimento e amarrado ao mastro, com a vontade de ir ao WC na recta final do filme.

    O recurso a efeitos especiais também foi reduzido ao mínimo (e não faltaram oportunidades para esticar essa corda ao máximo), o que não reduz a espectacularidade, só a aumenta. Há uma cena em particular que se torna ainda mais surreal depois de sabermos a forma tão artesanal como foi feita.

    Um artesão do cinema é, de facto, o que podemos chamar a Chris Nolan, e é dos poucos que se pode dar a esse luxo hoje em dia.

  • Oppenheimer

    Mais um filmaço do Chris Nolan. Ênfase no aço, em todos os sentidos.

    Elencaço, com Cillian Murphy à cabeça, cada vez mais firme como um dos atores icónicos da sua geração e tempo. Sem necessidade de muitas falas ou espalhafatos, transparece sempre uma entrega tremenda e uma capacidade de se transformar nas personagens só com a postura. Mas todos os colegas, com maiores ou menores papéis, encaixam e brilham à sua volta, incluindo um Josh Hartnett tão “maduro” e que eu não via há tanto tempo que demorei a perceber quem era.

    Banda sonorazaça, embalando de forma sublime a história, subtilmente dando o clima certo em cada momento; a maior parte do tempo, tenso ou melancólica, elevando a emoção nos momentos certos, seja imprimindo grandiosidade ou simplesmente se remetendo ao silêncio.

    E que história, e que momentos. Não sei se para todos os gostos, dada a duração e a profundidade em certos “capítulos” menos dados à ação (exemplo – os “interrogatórios” da audição), mas é um prazer para quem consegue abstrair do tempo e simplesmente desfrutar.