Y.

My balls feel like a pair of maracas.

Autor: Y.

  • Homem Com H

    Eu quero é botar, meu bloco na rua. É com este somzaço, pela voz do próprio, que termina este filme, que é não só história, mas também uma bonita homenagem à carreira e ao talento incríveis de Ney Matogrosso, que aos 84 anos segue firme e com muito mais energia que muita gente jovem!

    Ao contrário de outros biopics, é também a voz dele que vamos ouvindo nos vários momentos musicais do filme, e não a do ator que o interpreta, mas isso não tira grandeza nenhuma à performance entregue por Jesuíta Barbosa, uma força da natureza representando outra.

    A fórmula é mais ou menos básica e comum, começando na velha história da infância e da relação conturbada com o severo pai militar, até à emancipação, entrada na banda Secos e Molhados, partida e trabalho a solo, pontuada também pela ditadura, pela epidemia da SIDA nos anos 80, e pela inevitável relação com outra lenda, Cazuza.

    Pegando talvez um pouco leve demais naquilo que sabemos – ou imaginamos – que foi a loucura dessa era (um pouco à imagem do que acontece no ainda mais famoso biopic de Freddie Mercury), não deixa de entreter e emocionar, pois é bem produzido, bem interpretado e, no final de contas, o que vemos aqui é a história de alguém maior que a vida.

    Vale para quem é fã e para quem não conhece, desfrutar do prazer de descobrir mais. Confesso que eu próprio desconhecia certas músicas ou momentos incríveis, como o poema Rosa de Hiroshima, de Vinicius de Moraes, ou Requiém de Matraga, de Geraldo Vandré, que ganham uma vida absurda na sua voz.

    A rever e a reouvir, sempre.

  • Porto

    Aproveitamos a peça Dois de Nós para fazer uma pequena escapadela de fim-de-semana ao Porto, ou aproveitamos a escapadela para ir ver a peça, já não sei bem. O que é certo é que conbinou tudo muito bem para celebrarmos 15 (!) anos de casados com esta viagem.

    Estranhamente, só tínhamos estado no Porto em passagem de outras andanças, e nunca tinha calhado pararmos a sério para desfrutar desta bela cidade. Não só isso está corrigido, como fomos muito bem acolhidos a todos os níveis, num fim de semana frio, mas com um tremendo sol iluminando toda a incrível paisagem.

    Ficamos alojados num dos apartamentos Oporto Comfort Dom Hugo, na rua do mesmo nome, bem no centro histórico e um excelente ponto de partida, a pé ou de metro, para vários dos principais pontos turísticos.

    Pertíssimo do cais da ribeira, mas com o detalhe do percurso ser composto por trilhões de escadas e ruas íngremes, portanto convém mentalizar, preparar as pernas e o folêgo. Mas é um caminho que vale cada passo. O Porto é de fato uma cidade mística e, não querendo desdenhar da capital, apesar de ter também turismo massivo, consegue ainda manter um carácter muito mais autêntico e local do que Lisboa, na minha opinião.

    Um amigo local me presenteou com duas recomendações de restaurantes que aproveitamos e adoramos: O Rápido (em homenagem ao comboio, e não à velocidade do serviço), com uma comida bem típica, de conforto e de qualidade caseira, e o Brasão, para uma imperdível Francesinha. Este último tem várias casas, e experimentamos a do Coliseu, mesmo a jeito da peça.

    Tivemos pena de não conseguir entrar na Livraria Lello, sempre com filas tremendas, e de não termos reparado que o mercado do Bolhão fechava ao Domingo, precisamente quando planeamos visitá-lo! Coisas de quem vem da Margem Sul do Tejo e acha que todos os mercados só fecham à segunda…

    Bamos ter que boltar.

  • Dois de Nós

    Depois de Baixa Terapia e Tribos, Dois de Nós é a terceira peça de António Fagundes que fomos assistir – desta vez esticando um pouco a corda e indo até ao Coliseu do Porto, uma das cidades com que a troupe brindou Portugal nesta tournée.

    A sinopse da peça não revelava muito sobre o que íamos encontrar, e ainda bem, porque o efeito surpresa amplia sempre a experiência do espetáculo. Só sabíamos que dois casais de diferentes gerações iam se encontrar num quarto de hotel.

    À medida que a peça se desenrola, percebemos que os dois casais são, na verdade, as mesmas pessoas em momentos distintos da vida – relembrando, discutindo e debatendo sobre acontecimentos do passado e o que poderia ter sido feito para evitar os erros cometidos e as consequências do futuro.

    Um texto absolutamente brilhante, entregue com maestria – com muito humor, mas também com perspetivas que despertam outro tipo de emoções e reflexões, que acabam por nos acompanhar muito para além do que vemos em cena.

    Já falei do António, mas todo o elenco está absolutamente incrível, sendo que se tivesse que destacar alguém, seria mesmo Christiane Torloni, que nunca tinha visto ao vivo e que tem a personagem mais forte da peça.

    “Enquanto há amor, cuida dela” é uma das frases-chave relembradas pelas personagens. Enquanto houver António Fagundes e teatro, que estejamos lá para assistir.

  • Da Weasel – Sol da Caparica 2025

    Este não podia falhar. Para mim, a melhor banda portuguesa. A que acompanhou e marcou infância, adolescência, vida adulta. Ressurgida e reanimada, e a jogar em casa, na deles e na minha.

    E que show, meus senhores. A idade passa por eles, mas não pesa – quanto muito soma à tremenda presença de palco que tem. Sem mega produções ou coreografias, mas muita energia, carisma, e nos rostos aquela alegria genuína de ainda andarem nisto há tanto tempo e ainda arrastarem multidões de gerações várias.

    Não só o fazem com esse sorriso na cara, como não se ficam por entregar serviços minímos (que provavelmente já satisfariam toda a gente) – duas horas de concerto, non-stop, puxando o público para cima e controlando o ritmo através do seu vasto repertório, da porrada ao romantismo, do protesto ao puro prazer de dançar.

    Vimos também os clássicos Mundo Segundo ,que entregaram um show excelente, trascendendo o tamanho do palco secundário em que tocaram.

    Dou-lhe com a alma, até que a alma me doa..

  • Golfinhos na Baía de Setúbal

    É daquelas coisas em que nem paramos para pensar, mas não fazia sentido nenhum já termos feito vários passeios de barco noutros países e nunca termos parado para fazer isso na incrível baía de Setúbal.

    Escolhemos a Dolphin Bay, e foi uma viagem muito boa. Eles têm uma particularidade interessante: garantem sempre a observação de golfinhos – se não acontecer numa viagem, oferecem um voucher para remarcar gratuitamente noutra.

    Mas aconteceu! Não vimos um grupo muito grande (há 28 golfinhos “registados” na região), mas foi incrível. Estavam claramente alimentados, porque a certa altura havia um cardume gigante de peixes à vista e eles nem lhes ligaram nenhuma, só andavam a “passear” e a saltar à volta do barco. Os guias foram explicando que existe um tempo máximo e um número limite de barcos que podem estar com os golfinhos, para não os incomodar, e que esse tempo pode até ser menor dependendo do “humor” deles.

    A tripulação é toda muito prestável, fluente em várias línguas, e ainda nos ofereceram aquele moscatelzinho de lei no final da viagem.

    Nota à parte: mesmo que não tivéssemos visto golfinhos, já valeria o passeio só pela vista da serra da Arrábida. Não fosse a água ser tão gelada, estaria facilmente no campeonato das Maldivas.

  • Olivia Rodrigo – Madcool Festival 2025

    A minha filha mais velha é muito fã da Olivia Rodrigo. Este ano ela veio até ao NOS Alive, e eu ia cometendo um vacilo gigantesco -ofereci-lhe bilhetes para esse dia e, por descuido, marquei as nossas férias para Menorca exatamente na mesma data!

    Felizmente consegui dar a volta, porque logo a seguir a Lisboa ela seguiu para Madrid, e nós fomos juntos, para compensar a ausência em “casa”.

    Ficámos no hotel Vértice Roomspace, que é literalmente na rua do festival, a uns 5-10 minutos da entrada. Mais cómodo para quem vai só para o festival é impossível. O hotel é básico, mas confortável e com um preço bem justo para o que oferece.

    Sobre o festival em si: não é um recinto muito grande, o que para mim é uma vantagem – é fácil situarmo-nos e saltitar de um lado para o outro. A zona da restauração é bem servida, variada e com preços menos absurdos do que tenho visto em Portugal.

    Sem ser a Olivia, vimos o Finneas, que deu um show simples mas muito bom, e parte dos Glass Animals, que transmitem uma energia incrível também. Dispensámos os 30 Seconds to Mars, porque não simpatizo muito – nem com a música nem com a figura do vocalista.

    Agora, sobre a figura principal: ela é, de facto, um poço de talento incrível, especialmente se tivermos em conta que tem só 22 anos. Ela canta (bem), grita (muito bem), toca tudo o que é instrumento, representa, e puxa muito, muito pela legião de fãs que tem – e não é à toa.

    O que mais me surpreendeu foi que não eram apenas adolescentes e jovens a cantar de cor e salteado – eram em grande parte as mães (pais também, mas menos) a gritarem em plenos pulmões junto com filhos e filhas, numa comunhão bem comovente. Excelente também o facto de toda a banda ser feminina, e igualmente talentosa.

    Pode-se não gostar, pode-se criticar a originalidade, mas o talento da miúda é inegável – é uma força e, até ver, um exemplo incrível para toda uma geração.

  • Menorca

    Este ano, para as férias de verão, escolhemos Menorca que, apesar do nome, é a segunda maior ilha balear, sempre ali na sombra da badalada vizinha Mallorca.

    Não consigo fazer uma comparação justa porque em Mallorca só passámos dois dias há uns anos, meio à pressa, enquanto aqui foi uma semana inteira, com tempo e carro para explorar como deve ser. Para o nosso gosto, Menorca bateu certo com o que procuramos — Mallorca pareceu-nos mais caótica, noturna, cheia de pessoal jovem numa onda de avacalhar; Menorca, mais calma e familiar, no ritmo certo.

    Começando por essa parte do carro – apostamos numa rent-a-car local, a Doncars, e foi uma aposta ganha – nada de stress com cartões de crédito ou cauções (todos os alugueres vêm com seguro completo), estavam à nossa espera à porta do aeroporto e, para devolver, foi só deixar o carro no parque. Fácil, como se quer.

    Ficamos em Son Parc que, mais uma vez, encaixou na nossa onda: relativamente perto do aeroporto, acesso fácil a qualquer lado da ilha, uma praia excelente e tranquila, e com o básico à mão (supermercado, restaurantes, etc). Alojamo-nos nos Apartamentos Playa Parc, uma espécie de apart-hotel modesto, mas que faz parte de um grupo com outros hotéis ali perto, e dá acesso aos espaços comuns de todos (piscinas, mini-parque aquático, salões de jogos, etc).

    O acesso à praia de Son Saura é uma curta caminhada, e quase que dava vontade de ficar só por ali, mas acabamos por explorar uma praia diferente todos os dias (e ainda ficaram várias por ver). Privilegiámos as de acesso mais fácil, mas mesmo essas eram de cair para o lado – natureza linda, areal branquinho, e uma água cristalina daquelas que não apetece sair.

    Não houve uma única de que não gostássemos – Cala Galanda, Son Bou, Cala Macarella… todas brutais. Mas a nossa preferida foi Cala En Porter: pequenina, com acesso fácil (quase até à areia de carro), e com uma tasca de tapas mesmo ali ao pé, ótima e com preços justos. Comemos sempre muito bem – bem no sentido da alma, porque a parte saudável e de manter a forma também tirou férias.

    A Ciutadella de Menorca também vale a visita. Tivemos a sorte de apanhar um dia menos solarengo e deu para passear na boa sem derreter. Estacionar é chato, mas a zona da Marina é mais calma (e bonita), e depois é uma caminhada curta até ao centro.

    Outro passeio que também vale a pena é no porto de Mahon, no barco com fundo transparente. Há várias empresas que fazem o passeio, nós fomos na Yellow Catamarans, e superou as expectativas. Apesar de ser apenas à volta do porto, o porto em si é grande – na verdade é o maior porto natural do mediterrâneo – tem muita história para contar, e uma variedade imensa de peixes à entrada para o oceano, que formam um espectáculo incrível pelas tais janelinhas.

    Resumindo – praias espetaculares a uma curta distância de avião, pouca confusão (pelo menos em Julho), uma semana de sonho, não podia pedir muito mais.

  • Todo partido

    Eu? Não, este blog.

    Como qualquer um pode perceber, a frequência com que actualizo esta página já teve (muito) melhores dias.

    Um conjunto de atualizações automáticas das versões do wordpress e do PHP partiram o template que eu usava aqui há vários anos, e tive que alterar para o tema padrão, até ter um tempinho para resolver.

    Não está horrível, mas também não está completamente funcional – não inclui algumas das coisas que eu gosto de ter aqui para navegar (categorias), as citações que curto ter no cabeçalho, etc. Sei que isto provavelmente só interessa a mim próprio, mas é o suficiente para me chatear e prometer resolver!

  • Imagine Dragons

    Normalmente, quando gosto muito de alguma banda ou artista, consigo dizer com precisão qual foi a primeira vez em que os ouvi, ou pelo menos situar mais ou menos desde quando é que os acompanho. Não consigo fazê-lo com os Imagine Dragons.

    Sinto que eles entraram de forma sorrateira na minha vida e que os acompanho desde “sempre” – talvez também por terem começado a brilhar mais ou menos na altura em que fui pai pela primeira vez, e por terem continuado a lançar músicas impactantes ao longo desta década e pouco de viagem, deles e minha.

    Fora o meu próprio gosto, são a banda favorita do meu filho Francisco, e não podíamos perder a oportunidade de vê-los ao vivo – apesar de no estádio “errado” para nós. Valeu muito a pena.

    Deu para conhecer músicas novas, mas também revisitar os êxitos que todos conhecemos. A cereja no topo do bolo para mim foi ainda terem cantado Birds perto do fim – porque não esperava, visto não estar nas setlists que o pessoal que foi às outras cidades da tour partilhava, e por ser… não diria a minha favorita, mas a que toca de forma mais profunda. Eu achava que talvez fosse melhor deixar de gerar expectativas e evitar pesquisar antes dos concertos, mas aqui tive a prova de que não – posso ter a expectativa que for, que está sempre do lado dos artistas surpreender, se não forem padronizados em demasia.

    A banda funciona obviamente bem enquanto conjunto, mas não há como fugir ao protagonismo do Dan Reynolds. A energia que ele transmite é incrível, e pode até ser que seja uma personagem, mas ele transparece mesmo muita genuinidade nas ideias que vai trocando com o público. Além disso, faz tudo, e tudo bem – canta muito bem, brinca, dança, pula, toca piano, toca bateria… muito injusto para nós, comuns mortais.

    Foi daqueles momentos em que tudo se encaixa: a música certa, com as pessoas certas, no momento certo.

  • Sinners

    Já sabia que o Ryan Coogler e o Michael B. Jordan estavam com um filme novo. Sabia que era de época, que o MBJ interpretava dois papéis simultâneos (irmãos gémeos), e que, de alguma forma, a música era central à trama. Não sabia mais nada, mas sabia que tinha de ver, e de preferência no cinema.

    Na verdade, procurei deliberadamente não saber mais nada – vi um post do Nuno Markl a referir que o seu amigo Filipe Melo tinha sugerido que ele fosse ver o filme sabendo o mínimo possível, e achei uma grande ideia. Confio cada vez menos na opinião coletiva do IMDb e das redes sociais desta vida. Acho que elas toldam e limitam a nossa predisposição para viver as experiências cinematográficas, e para termos a nossa própria opinião sem enviesamento.

    Dito isto, é de longe a melhor parceria entre o realizador e o protagonista (se bem que é discutível quem é o verdadeiro protagonista da história…), e foi dos filmes que mais gostei de ver nos últimos anos. Por vários motivos.

    Para começar, eu adoro o subgénero de filmes de vampiros, e tem sido um dos que mais levou porrada nos últimos anos com filmes de qualidade duvidosa. Surgir algo que venha contrariar essa tendência já é incrível.

    Todo o elenco é muito bom e tem uma grande química em conjunto, mas não há como não destacar o estreante Miles Caton, tanto pela presença como pela tremenda voz que lhe sai da alma. Fechando os olhos, seria difícil acreditar que se trata de um rapaz de 20 anos, e não de um bluesman mais que vivido.

    Apesar da inspiração em vários filmes ser óbvia (From Dusk Till Dawn, Django, e por aí vai), isso importa muito pouco quando a mistura final consegue ser tão boa, e até bastante original – a cena musical em que vários espíritos do passado e do futuro são invocados e dançam juntos é simplesmente mágica, e só por ela já vale a pena ir ao cinema.

    Para ver de peito aberto.