É o primeiro 25 de Abril que passo fora de Portugal em 22 anos. É estranho.
E numa época destas, é sempre bom lembrar:
Faz hoje uma semana que estou na Irlanda. Sendo cedo para grandes balanços, já consigo transmitir algumas dicas para quem queira ou precise seguir o mesmo caminho.
Salto a parte de encontrar emprego, porque já vim com ele assegurado. Assim sendo, a minha principal tarefa à chegada foi encontrar casa.
“O” site da especialidade aqui é o daft.ie. Tem muita oferta, mas também muita procura. É muito comum vermos um anúncio recente, tentarmos estabelecer contacto e o local já estar nas mãos de outro inquilino. Eu não sofri muito com isso porque até nem estou no centro da cidade, mas estejam preparados para ser pacientes. Aconselho também a fazerem logo contacto telefónico, porque nem sempre respondem aos mails. Ou seja, assim que chegarem, arranjem também um cartão SIM irlandês.
Tipicamente os contratos de arrendamento são no minímo de um ano, mas não se preocupem muito com isso: na Irlanda não é ilegal sub-alugar ou re-atribuir o aluguel a outra pessoa. Se depois quiserem ou tiverem de ir embora, “só” tem que tratar de arranjar novos inquilinos. Estejam preparados também para, à cabeça, dar um mês de renda e outro de caução, mas isso também é o normal em Portugal.
Antes de mais, para serem alguém aqui, precisam de um PPS number. O PPS number é um identificador que corresponde ao número de contribuinte/número de segurança social em Portugal. É simples de pedir, bastando apresentar um documento válido (passaporte/cartão do cidadão) e uma morada. É aqui que a porca pode torcer o rabo, porque:
Ciclo infinito… a solução? Ou dar a morada de algum conhecido, que foi o que fizemos, ou dar a morada do hotel em que estão alojados, e fazer a alteração para a morada definitiva à posteriori.
Como também interessa que comecem logo a cair euros de proveniência Irlandesa nos nossos bolsos, é conveniente abrir assim que possível uma conta bancária. Aqui também varia: alguns bancos pedem o PPS number e um comprovativo de morada (uma conta, que não temos), outros possuem balcões que aceitam cartas de empresas dos arredores (foi o nosso caso), é uma questão de se informarem.
Pode acontecer também que certas empresas ou senhorios exijam registro criminal, portanto, peçam-no no país de origem antes de virem, e traduzam-no através de um tradutor certificado. Quem for casado e/ou tiver filhos, que traga e traduza também os assentos de casamento e nascimento, pois mesmo que não tragam de imediato as vossas crias, podem pedir logo o Child Benefit, que ainda é 130€ por criança, o que é uma boa ajuda.
Especificamente para Dublin, aconselho também que façam logo um Leap Card, que é um cartão recarregável para andar nos transportes, e que se compra em várias lojas por toda a parte. Sem ele, o sistema é chato: nos autocarros de Dublin os motoristas não aceitam notas nem dão trocos, temos que dar o valor exacto ou ficamos sem troco; apesar de se poder pedir reembolso à posteriori na central, é um sistema muito chato. Essa dica vale para turistas também.
Quando souber mais, vou partilhando.
I miss my girls, madly.
Como se ser pai não fosse uma mudança de vida suficientemente grande estou embarcando em outra, já de seguida.
Tive uma oferta bastante boa para vir para fora, mais concretamente para Dublin, na sede da Ryanair. Trocando por miúdos, também eu me torno (duplamente) emigrante.
A vida gosta de nos pôr à prova: procurei algo do género durante bastante tempo, e só apareceu quando eu nem sequer procurava, com uma bebé recém nascida nos braços.
As minhas princesas não estão vindo de imediato comigo, até a mais pequena crescer mais um bocadinho e eu preparar tudo por cá. Essa parte custa muito, na exacta medida do quanto as amo e do quanto delas preciso. Só nós sabemos o quanto.
Já há quase um ano que não falava aqui no Sporting, e a notícia que me leva a evocar aqui o nome do meu clube já vem com dois anos de atraso.
Independentemente do que o futuro reserve, estou muito feliz com o resultado destas eleições por um simples motivo: finalmente, em quase duas décadas de acompanhamento ativo da realidade sportinguista, vejo ser possível acontecer uma verdadeira mudança no clube. Anseio que chegue o dia em que possa dizer o mesmo da sociedade portuguesa. Extrapolados, os problemas são exatamente os mesmos.
Boa sorte, Bruno. Viva o Sporting.

Não, eu não embarquei de vez nessa onda de só falar na idade da minha criança em semanas. Apesar de agora perceber melhor o motivo dessa “tática”, vendo o quanto os bebés evoluem de uma semana para a outra, a verdade é que me desleixei; queria ter escrito isto quando ela fez um mês, e agora meter aqui um título “um mês e X dias” não soava tão bem.
Tê-la cá fora é infinitamente melhor do que tê-la dentro da barriga! As primeiras duas semanas (ou mais concretamente as respetivas noites) não foram propriamente fáceis, com a adaptação ao ritmo do acordar noturno, o cansaço acumulado, os pequenos sustos, as dúvidas, o desconhecimento dos significados do comportamento dela… a boa notícia é que, com os bebés, todas as horas de dificuldades são esquecidas em poucos segundos, pois são inúmeras as pequenas alegrias que eles nos proporcionam ao longo do dia. Tudo é motivo para ficarmos contentes. É ela olhar para nós que nos derretemos todos, é ela arrotar que ficamos todos orgulhosos, é ela cagar que dançamos de alegria, é ela começar com os primeiros sorrisos que quase deliramos. É lindo.
Falei nas dificuldades, mas assim como penso termos tido sorte com o parto, também a temos tido com a criança. Até agora a Carolina tem sido uma bebé fácil, quase sempre tranquila. Não tem tido grandes cólicas, sendo que por norma só chora (e aí chora com força) nas horas de comer (que não falha) e nas de sair do banho. Nas últimas noites até já tem dormido para lá das 5 horas seguidas, o que significa só acordar uma vez por noite. Para a mãe, porque o pai já nem nota; peço aqui publicamente desculpa às minhas meninas, mas o organismo do pai não conseguiu mudar no que ao sono de pedra diz respeito. Eu não adormeço: desmaio.
Tem crescido bastante bem (a pediatra diz que ela é gigante) e, cereja no topo do bolo… é linda de morrer. Não vou dizer “que não é por ser minha filha”, porque claro que também é por ser minha filha, fui eu que fiz, e não há nada nesta vida de que me possa vir a orgulhar mais do que disso. Faz tudo fazer sentido.
Conselhos que eu possa dar aos futuros pais, ou para os que o pretendam ser: simplesmente que não se preocupem, e não tenham medo. Quando chegar a altura vocês saberão o que fazer e, quando não souberem, terão quem vos ajude. Quando nasce uma criança nascem um pai e uma mãe também.

Não, eu não deixei de ser consumidor voraz de cinema depois de ser pai! O ritmo abrandou um pouco, e ainda não consegui ver um filme todo de seguida sem paragens desde que a minha princesa nasceu, mas se não é de seguida é em três ou quatro vezes.
Um dos últimos que vi foi este Les Miserables, o famoso musical baseado na obra de Victor Hugo, apresentado aqui em versão hollywoodesca pelas mãos de Tom Hooper, de quem sou fã não tanto pelo Discurso do Rei mas pelo excelente The Damned United.
O ponto prévio é: se não gostam de musicais, não vejam. Podem não gostar e tentar de vez em quando, mas este é verdadeiramente um filme musical, na medida em que não existem de todo diálogos que não cantados. Mais: todas as músicas são cantadas ao vivo, contrariando a tendência de, em cinema, gravar-se à priori e dublar-se em cena. É um pormenor que faz toda a diferença na autenticidade e na força com que nos atinge.
Já eu adoro musicais, e tenho pena que seja um género quase morto, com uns fogachos aqui e ali. Vejo um e fico umas boas semanas com as músicas na cabeça, cantando no banho e na cozinha, e agora com uma certa menina no colo, adaptando The Confrontation em versão calminha lullaby. Tipo estes gajos abaixo, mas baixinho, calmo, e com uma bebé olhando para mim tipo “este gajo é parvo”.
Aqui, os “verdadeiros” dando um cheirinho.
Bom, achei este musical em particular bastante bom, com destaque para todas as cenas que envolvem o caminho de redenção do protagonista Jean Valjean, o ex-prisioneiro em busca de levar uma vida cristã, e em particular para as que o opõem ao seu antagonista Javert, o homem da lei que teima em persegui-lo ao longo dos anos. Já sabia que o Hugh Jackman dava uns bons toques na cantoria, mas não que o Russel Crowe também (curioso serem dois australianos a representarem… dois franceses). Aliviando o drama, o Sascha Baron Cohen (Master of The House!) e a Helena Bonham-Carter estão absolutamente brilhantes no papel do inefável casal de estalajadeiros.
E não, não é lapso, não incluo mesmo a Anne Hathaway em modo Liza Minelli nos momentos alto do filme. Canta, sofre, esfola-se… mas não acho isso tudo, e perde-se no meio de outros momentos. Não ajuda a música andar muito batida. Desculpa, Anne! Boa sorte.
Já não estás no futuro, filha. A tua era começou ontem. Vou contar-te como foi.
Começou por volta das 2 da manhã. Para mim, porque a tua mãe já sentia algumas dores antes, mas esperou ter a certeza para me acordar. (Acordar-me é duro. Ouvi dizer que vens mudar isso).
Às 2h32 chegamos no Hospital Garcia da Orta. Não sei como há pessoas que continuam a não gostar de emigrantes no teu país, filha. Por essa altura na obstetrícia esperando as mulheres estavam eu, outro brasileiro e um indiano. Sem contar que a médica era de leste. Adiante.
Enquanto a tua mãe esteve lá dentro sendo observada, ligada ao CTG e etc, o teu pai foi esperando, vendo mais setecentas vezes o painel mosaico sobre a estadia do Garcia da Orta na Índia que está na parede do Hospital, lendo mais oitocentas vezes as mensagens que os novos pais vão rabiscando nos quadros da sala de espera… esperar-te custa, filha! Tem isso em conta futuramente, quando te maquilhares, fores às compras, passeares com as amigas…
Mas esta espera em particular compensou. Quando ela voltou, às 04h20, já veio toda equipada, de bata do Garcia e trouxa na mão para ser internada. Íamos ficar. Ias sair! Fez o aquecimento, benzeu-se e entrou e campo às 04h40. Outra longa espera até ser chamado para fazer parte da jogada também, o que só aconteceu às 06h12.
Gostei do que vi quando lá entrei, na cama 4 do bloco de partos. A tua mãe estava toda feliz da vida, porque tinha logo levado a epidural, e não sentia dores. O ambiente também me parecia bom, muito calminho, tudo na paz. Toda a gente era extremamente simpática e prestável, apesar de as pessoas que lá estavam nessa altura não serem as mesmas da hora H, porque a troca de turno é às 08h00.
A partir das 7 o panorama foi se alterando. A moca da tua mãe foi passando, as dores de volta, a dilatação não evoluía, e às 07h30 vieram da sala ao lado os gritos mais aterrorizantes que já ouvi na vida. Gelamos. Como a coisa não andava por aí além, às 8 achamos por bem eu ir comer para aguentar o baque. Quando voltei é que começou verdadeiramente a ação.
Ocorreu a tal troca de turno, e a enfermeira responsável pelo teu nascimento apresentou-se, a enfermeira Isabel. Faço um parêntesis, ou melhor, uma vénia, para falar dela e das médicas que estiveram connosco. Absolutamente impecáveis, nada a assinalar senão a simpatia, a paciência e o profissionalismo. Ficamos muito felizes nesse aspeto. Como a coisa não andava muito, às 10 para as 9 a enfermeira meteu a tua mãe a levar Ocitocina, para regularizar as contracções e ver se evoluía. Ela levou outra droga qualquer para as dores também, visto que a epidural já era.
Às 09h20, tudo na mesma, e chega uma das médicas que viria a acompanhar o parto, a Drª Fátima Romão (é a única de quem consegui decorar o sobrenome), analisa a “área” e diz: “só 10 mg de Ocitocina? Carrega 40, vamos embora, estamos aqui para isso”! Gostei da atitude. A partir daí as contracções estabilizaram e vieram mesmo com força. Houve muita dor filha, muita dor! Respeita a tua mãe, porque ela sofreu bastante por ti.
Ainda assim, a dilatação continuava na mesma, os mesmos 4 dedos durante aquele tempo todo. Tudo fazia crer que o dia fosse bastante longo, sendo que a enfermeira até disse que gostava de te ver, mas que saía às 16.
E de repente, tudo mudou. Ouvindo a tua mãe gritar de dor, ela veio espreitar a situação. E deu-lhe toda a razão do mundo. Às 10h03, apenas meia hora depois da última espreitadela, a tua mãe passou dos 4 dedos de dilatação para os 9! As águas ainda não tinham rebentado, portanto, a própria enfermeira tratou de rebentá-las (esta parte não doeu nada). Et voilá, dilatação completa. Completamente a postos para expulsar-te.
E se antes tinha havido dor, filha, aqui houve mais ainda. Primeiro, levantaram as costas da maca para ela fazer força sentada, até tu te meteres a jeito, e depois deitaram-na novamente, para fazer força para saíres lá de dentro. Força essa que é não toda a força que a tua mãe tem, mas toda a força do mundo, e que ainda precisou da ajudinha de uma ventosa para te puxar, puxão esse dado pela Drª Cláudia, que foi quem te meteu cá fora.
Às 11h52 foi a catarse. Chorei como nunca chorei na vida, quando comecei a ver a tua cabeça, e todo o teu corpinho de 50cm e 3.270kg escorregando em seguida. Cortei o cordão, e puseram-te no peito da mãe pela primeira vez.
É a coisa mais linda, mais espetacular, mais emocionante que pode haver. Sobre tudo o resto, não minto. É feio por demais. Placenta, membranas, sangue… cenas. Cenário de guerra. Mamãe sendo cozida por mais de uma hora. Enfim, não importa.
Valeu tudo a pena, filha. Vales tudo.

Vale sempre a pena esperar por um filme do Quentin Tarantino. Esta frase continua inteiramente verdadeira. Diria até reforçada, depois deste Django Unchained.
Se ele já tinha atacado o género Blaxploitation em Jackie Brown, aqui decide misturá-lo com um dos que lhe faltavam na filmografia: o western. Ou o southern, já que o cenário é todo sulista.
Nos Estados Unidos de 1858, Django era mais um escravo sem qualquer esperança de salvação, até ser resgatado por um caçador de cabeças alemão, que precisa dele para reconhecer visualmente os seus próximos alvos. Inicialmente “contratado” somente para esta missão, Django vai aprendendo o ofício e se tornando um exímio pistoleiro, tendo em vista o objetivo derradeiro de salvar a mulher, de quem fora separado à força.
Vários ingredientes básicos de filmes de ação à antiga misturados: separação à força da família, sede de vingança, associação de uma dupla improvável… tudo misturado numa panela cheia de sangue e referências históricas (e cinematográficas).
Além da estilizada violência gráfica, a narrativa e os típicos diálogos tarantinescos, o que realmente dá um toque extra ao filme, é a plausibilidade dessa violência, no período retratado. Tanto a física quanto a verbal, aliás (a palavra Nigger é dita ou cuspida mais que uma centena de vezes). Motivo de incómodo para muita gente que gosta de lavar a história com paninhos quentes.
O filme gira à volta de Django e o Jamie Foxx se assume o homem perfeito para o cargo, mas há varias outras personagens brilhantes, com a de Cristopher Waltz mais uma vez à cabeça. É também o melhor papel do Samuel L. Jackson num filme do Tarantino, depois de Pulp Fiction. Um velho servo negro profundamente racista (contra a sua própria raça), impagável.
Depois há também as pequenas lições de cultura geral. Para mim, e acredito que para grande parte da minha geração, a palavra Mandingo só remetia o meu cérebro para referências pornográficas. O filme lava isso. Obrigado.
Já me alonguei mais que o costume, portanto, o resto fica para verem. E ouvirem, que a banda sonora é, mais uma vez, outro espetáculo à parte.
Waiting for a Tarantino movie is always worth it. This statement remains absolutely true. I would add truest, after this Django Unchained.
If he already went all Blaxploitation in Jackie Brown, here he decides to mix it with a gender missing in the filmography: the western. Or, more specifically, the southern.
In 1858’s United States of America, Django was just one more hopeless slave, until he is rescued by a German bounty hunter, who needs him to visually recognize his next targets. Initially “hired” for just that mission, Django begins to learn the tricks of the trade and becomes an expert gunslinger, aiming the ultimate goal of saving his wife, from whom he was forcibly separated.
There are several basic old school action movie ingredients: sudden separation, thirst of revenge, an improbable duo of heroes… all mixed in a pot full of blood and historical (and movie) references.
Beyond the heavily stylized graphic violence, the narrative and the typical Tarantino dialogues, what really gives the movie an extra touch, is the plausibility of that violence, in that period. Both the physical and the verbal violence (the Nigger words is said or spat more than a hundred times). Strong reasons of discomfort to those who try to wash away dirt stories from the past.
The movie is all about Django and Jamie Foxx assumes himself as the perfect man for the job, but there are several other brilliant characters, with Cristopher Waltz shining above others, once again. It’s also the best role of Samuel L. Jackson in a Tarantino Movie, after Pulp Fiction. An old black collaborationist racist servant. Priceless.
There are also small general knowledge lessons here and then. For example, for me and my generation, the word Mandingo would only ring a bell about pornographic references. The movie sort of washes that. Thank you.
I already talked more than I use to, so the rest is yours to watch. And listen, as the soundtrack is also brilliant. Once again.

Começo 2013 como terminei 2012. Esperando.
Queria que o primeiro post do ano fosse dedicado ao nascimento da minha filha, mas por mais que eu lhe diga que já pode vir, quem decide é ela. Olhando para o que esperava de 2012, à primeira vista pode parecer que os objetivos não foram cumpridos na totalidade, principalmente no que diz respeito à “grande viagem”. No entanto, existe maior viagem do que ser pai?
A espera pela Carolina torna tanto 2012 quanto 2013 dois grandes anos da minha vida, faz tudo o resto parecer praticamente irrelevante e permite-me passar otimista pelo período que vivemos. Eu já sou otimista por natureza. Se pesquisarem por aquela palavra de cinco letrinhas começada por C, a mais falada e comentada em todo o Portugal, não a encontrarão neste blog, no ano que passou.
Não trato a p*** pelo nome não apenas porque dela estou farto, mas porque não preciso, pois todos sabem de quem se trata. Todos, neste país, dos 8 aos 80, não passam um dia sem ouvir o seu nome, várias vezes ao dia. Eu não quero falar sobre ela. Não por negá-la, obviamente, mas por já conviver tanto (desde sempre, por sinal) com a dita cuja que não preciso fazer dela o centro da minha existência. Eu quero combatê-la, sim, e aos que com ela lucram também, mas não deixando ela controlar-me, dominar todas as minhas conversas e o meu pensamento, deprimir-me, tirar-me ânimo para lutar.
Dito isto, venha o ano, venha ela, venha o que vier. Estamos aí.
O futuro destes recados está cada vez mais próximo, filha. Anteontem parecia-nos próximo até demais.
A tua mãe não te sentiu mexer quase nada durante o dia. Fomos encaminhados para o Garcia da Orta, o hospital onde vais nascer. Felizmente está tudo bem, e parece que o teu ano vai ser mesmo 2013.
Hoje sonhei contigo, e acordei com um sorriso de orelha a orelha. Tinhas os olhos azuis da tua mãe e, ainda recém-nascida, já falavas. Entre outras coisas, disseste que não gostas de abelhas. O que quer que isso signifique, eu também não.