Cinemadas

Hateful Eight

Chega a ser um ritual. Surgem os primeiros rumores de um filme novo do Tarantino; vou controlando o desenvolvimento da coisa com atenção, acompanho tudo o que vai sendo revelado e confirmado, e fico expectante e excitado até à estreia. Sei que muito provavelmente vou gostar do que vou ver, e eventualmente vou até chegar ao ponto de venerar o resultado.

E assim foi com Hateful Eight, com a excitação acrescida pela ameaça de cancelamento por disponibilização indevida do script antes do tempo, e posterior volte-face.

Este Western pode não ser (difícil decidir) um dos seus melhores filmes, mas assume com certeza um lugar de bastante mérito na filmografia do autor, sendo até bastante inovador em diversos aspectos.

O mais evidente é a banda-sonora. O corte e costura de músicas de outras referências é aqui substituído por uma banda-sonora dedicada e original de ninguém menos que o Senhor Ennio Morricone, que já tinha estado muito presente no universo de Tarantino, mas nunca de forma concertada e intencional. Suspeito que seja algo que Tarantino já quisesse fazer há muito tempo e finalmente tenha conseguido concretizar, e o resultado é muito, muito positivo.

Este “pequeno” facto confere ao filme um ambiente bastante intenso e surpreendentemente diferente do que seria de esperar de um western com Morricone ao fundo; mais carregado, mais negro, algo que sem imagem talvez associássemos mais a um filme de terror do que a um filme de cowboys.

Outra questão foi o equipamento de filmagem escolhido; em vez de uma modernice digital vocacionada para os IMAX desta vida, o filme foi rodado com a clássica Panavision 70 mm. A beleza cinematográfica alcançada é crua e brutal, tanto nos grandes planos panorâmicos (e o filme é repleto deles) quanto nos pequenos closes que se vão fazendo à medida que vamos entrando nas personagens.

Finalmente, as personagens. A forma como estas vão sendo apresentadas, reveladas e lentamente dissecadas, deixando para o clímax final o desvendar das verdadeiras intenções de cada uma delas, é simplesmente brilhante, principalmente por ser feita de forma bastante subtil, e reduzindo ao mínimo indispensável os longos diálogos que costumamos encontrar nos seus filmes.

Tudo isto mostra que o homem está em forma, segue criativo e continua a alargar o leque de truques que tem na manga. Agora é só esperar que não se passem muitos anos até que nos surpreenda novamente.

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