Blog

  • Le Francês

    Esta semana comecei um curso de francês no ILNOVA. Esperei passar as duas primeiras aulas para escrever isto, para ver se o entusiasmo era justificado ou se era só tesão do mijo.

    Durante os últimos 3/4 anos lectivos da faculdade, sempre que se iniciava um semestre, dizia que era desta que ia me meter num curso de línguas qualquer, mas nunca se proporcionou. Agora estou a trabalhar ali perto da FCSH, o horário era favorável e foi uma das últimas oportunidades de aproveitar o desconto de membro da Universidade Nova (não mais aluno, ainda bolseiro).

    Porquê o francês? Eu ainda cheguei a ter um bocadinho de francês na escola básica, mas não aprendi absolutamente nada; parti um bocado por aí, para dar uma segunda oportunidade à língua, mas também pela utilidade. Para tentar ler os poemas do Rimbaud no original, para ouvir Serge Gainsbourg e perceber, e por aí vai. E claro, para arranhar qualquer coisa na lua-de-mel!

    Curiosidades aleatórias que aprendi até agora:

    • Na França, as caixas de correio não tem os andares e números das portas, tem o nome das pessoas. Acho que é parvo, tanto pela hipótese de haver pessoas com nomes repetidos quanto pela privacidade. Não sei se é assim em toda a França também, mas foi o que percebi.
    • La mercerie não é mercearia, é retrosaria; l’épicerie é que é mercearia, que vem de épice (especiaria), dado que as mercearias surgiram para vender especiarias.
    • É rude chamar as pessoas só de Madame ou só de Monsieur (fora as saudações). Esse hábito era reservado às prostitutas e aos chulos, no século XVIII.
    • Le Chili não é nada picante, é mesmo o Chile. Quem nasce no Chili é le chilien ou la chilienne.
    • Como visto na frase anterior, tudo, tudo, tudo em francês tem que incluir o artigo (le, la, les). Sempre.

    Mais uma língua, mais uma ferramenta.

  • Estorvo

    Continuando o meu roteiro literário inverso do Chico Buarque, li esta semana aquele que foi o seu primeiro romance, Estorvo.

    Me prendeu mais que Benjamim e me entusiasmou menos que Leite Derramado. O protagonista, que não tem nome, nem bem vive nem morre, vagueia. Vagueia perdido, obsessivo não se sabe bem com o quê e contemplando a hipocrisia e a decadência da sociedade em que vive, da irmã e da mãe que o sustentam, da ex-mulher, dos ex-amigos, do ex-apartamento, enfim, tudo em sua história falhou ou foi perdido. Esse homem é o estorvo do mundo em que vive.

    Resumido assim parece uma história deprimente de um vagabundo fracassado qualquer, mas o tom que é empregue à escrita além de pesado, é contraditório, conseguindo ser ao mesmo tempo desesperado e apático, além de dar a algumas das estórias que o compõem contornos de romance policial. Uma história estranha e atribulada, contada duma maneira completamente desprendida.

    Sendo o segundo melhor que o primeiro e pior que o último (pelo meio ainda há Budapeste, que já li mas ainda não blogava), não é uma evolução linear, e nem o deveria ser; são uns altos e baixos de um escritor, não de um músico que decidiu se aventurar pela escrita: Chico Buarque é um escritor que, para mim, já conquistou o pleno direito de figurar entre os melhores da literatura brasileira.

    Aguardo com expectativa a próxima obra.

    Continuando o meu roteiro literário inverso do Chico Buarque, li esta semana aquele que foi o seu primeiro romance, Estorvo.

    Me prendeu mais que Benjamim e me entusiasmou menos que Leite Derramado. O protagonista, que não tem nome, nem bem vive nem morre, vagueia. Vagueia perdido, obsessivo não se sabe bem com o quê e contemplando a hipocrisia e a decadência da sociedade em que vive, da irmã e da mãe que o sustentam, da ex-mulher, dos ex-amigos, do ex-apartamento, enfim, tudo em sua história falhou ou foi perdido. Esse homem é o estorvo do mundo em que vive.

    Resumido assim parece uma história deprimente de um vagabundo fracassado qualquer, mas o tom que é empregue à escrita além de pesado, é contraditório, conseguindo ser ao mesmo tempo desesperado e apático, além de dar a algumas das estórias que o compõem contornos de romance policial. Uma história estranha e atribulada, contada duma maneira completamente desprendida.

    Sendo o segundo melhor que o primeiro e pior que o último (pelo meio ainda há Budapeste, que já li mas ainda não blogava), não é uma evolução linear, e nem o deveria ser; são uns altos e baixos de um escritor, não de um músico que decidiu se aventurar pela escrita: Chico Buarque é um escritor que, para mim, já conquistou o pleno direito de figurar entre os melhores da literatura brasileira.

    Aguardo com expectativa a próxima obra.

  • Clube Fashion

    Vinha me tornando cliente do Clube Fashion, mas desiludiram-me. Não gosto de fazer publicidade negativa só por fazer, mas no caso fiquei chateado porque até gostava do conceito (pese o falso “elitismo”, muito em voga), e as poucas compras que fiz ainda valeram a pena.

    Das três compras que fiz, três atrasaram. Uma delas era uma prenda para a Irina que foi sendo atrasada sucessivamente até somar mais ou menos um mês. À quarta foi de vez: nova encomenda, novo atraso, e não decidi esperar e rezar para que não atrasasse mais. Cancelei a encomenda, pedi a restituição do dinheiro, e disse que podiam remover a minha conta assim que processassem o reembolso, pois não iria mais utilizar o serviço. Compreendo que os atrasos sejam mais da responsabilidade dos diversos fornecedores do que deles, mas podiam no mínimo fazer um esforço para fornecer estimativas realistas aos clientes.

    Devolveram e disseram “ok, removemos-lhe da base de dados”, naquele espírito muito português de “temos muitos clientes, não precisamos minimamente de si, você é que perde”. Whatever. Nunca é só um cliente que perdem (palavra puxa palavra) e mesmo que fosse, é um cliente.

    Passar bem.

  • Menos de um mês

    Ontem começou a verdadeira contagem decrescente para o grande dia. Mandei mail para toda a gente, a repetir muito do que já aqui tinha dito, que o pessoal é distraído.

    Aquilo que eu disse que faltava num dos posts anteriores, o livro de honra, já ficou tratado, a muito custo.  Na verdade, não chega a ser um livro de honra, é um bloco d’honra. Esbarramos numa prateleira com moleskines na FNAC, e compramos um moleskine… falso! Na verdade é de uma marca chamada bahamas, e da sua compra posso depreender que os moleskines tão muito overrated: o bahamas foi muito mais barato, é maior e colorido. Levou umas costuras da Irina, um textinho meu e ficou bem engraçado.

    A prova do vestido da Irina, que tinha ficado marcada para ontem, foi adiada (sem aviso) para segunda-feira. Deve ser do tempo… assim de cabeça, faltam-me uns sapatos e ir à conservatória entregar assinaturas e fotocópias dos BI’s das testemunhas. Tá quase, quase. Falta só o quase, mas cheira-me que o tempo vai voar..Ontem começou a verdadeira contagem decrescente para o grande dia. Mandei mail para toda a gente, a repetir muito do que já aqui tinha dito, que o pessoal é distraído.

    Aquilo que eu disse que faltava num dos posts anteriores, o livro de honra, já ficou tratado, a muito custo.  Na verdade, não chega a ser um livro de honra, é um bloco d’honra. Esbarramos numa prateleira com moleskines na FNAC, e compramos um moleskine… falso! Na verdade é de uma marca chamada bahamas, e da sua compra posso depreender que os moleskines tão muito overrated: o bahamas foi muito mais barato, é maior e colorido. Levou umas costuras da Irina, um textinho meu e ficou bem engraçado.

    A prova do vestido da Irina, que tinha ficado marcada para ontem, foi adiada (sem aviso) para segunda-feira. Deve ser do tempo… assim de cabeça, faltam-me uns sapatos e ir à conservatória entregar assinaturas e fotocópias dos BI’s das testemunhas. Tá quase, quase. Falta só o quase, mas cheira-me que o tempo vai voar..

  • Os Punheteiros de Entrecampos

    Aquilo que vou contar agora passou-se na segunda-feira, mas foi tal o meu choque que ainda estou com isto na cabeça.

    Na segunda saí mais cedo para começar a aproveitar o feriado e o aniversário da mulher amada. Chegado à estação de comboios de Entrecampos, vi-me afligido pela necessidade fisiológica mais comum e corri para uma das casas de banho. Estavam três “cavalheiros” e um urinol vago no meio, mas assim que chego mais perto do mesmo, noto que eles não estavam propriamente a urinar… estavam antes os três a masturbar-se, impávidos e serenos. Um deles fica a olhar para mim, mas continua com o serviço. É claro que dei dois passos atrás e tive que aguentar a bexiga até ao Pragal.

    Em conversa com amigos, descobri que é uma coisa absolutamente natural naquela estação. O que leva homens na casa dos trintas e quarentas a irem esgalhar o pessegueiro para uma casa de banho pública, às três horas da tarde, ultrapassa-me completamente, mas que os há, há. Desconhecia este nível de taradice em Portugal, mas sempre aprendendo…

  • Dançando com o diabo

    Ontem à noite deu este documentário de Jon Blair na rtp2.

    Não traz grande novidade, mas é interessante. Vão sendo mostrados diversos depoimentos de traficantes, moradores e polícias do Rio de Janeiro, tudo sob uma perspectiva voyeurista: não são mostradas perguntas, e deixam-se aos critérios dos espectadores as conclusões, que hão-de ser sempre ambíguas, dado que chegamos sempre às mesmas contradições e confirmações do ciclo de violência.

    Os elos condutores do filme são Dione, um pastor evangélico que luta para tirar os bandidos do tráfico e trazê-los para a igreja, e o Homem Aranha, um barão da droga que diz que quer largar essa vida, mas não sabe como. E é aqui que o documentário se mostra interessante: por mais que eu abomine a maior parte das igrejas evangélicas que florescem (e pro$peram) que nem cogumelos, aqui dá para notar a verdadeira força que a fé tem, quando bem direccionada.

    A confirmação (ou melhor, constatação) que é um problema horrendo e longe do fim, e que o caminho não pode passar somente pela violência, que maior violência gera.

  • Um mês e pouco

    Bom, faltam um mês e pouquíssimos dias para o grande dia, e vou dar aqui conta do que se passa aí na street.

    Na semana passada tivemos mais uma vez na quinta do pavão, e escolhemos a ementa, o bolo e a decoração das mesas. O serviço em si ainda não foi prestado, mas até agora estamos muito satisfeitos com o atendimento, disponibilidade e boa-vontade do Sr. Hélder e família, e temos quase a certeza que vai tudo correr bem.

    O tema vai ser cidades e locais que fazem parte da nossa história, com uns textos da minha autoria ou citações soltas em cada mesa.

    Ontem ligaram-me de uma transportadora a dizer que tinham uma entrega para mim mas não encontravam a minha rua no GPS. Eram os brindes do casamento, que já estão cá por Portugal mas só vão conseguir entregar no sábado. Eles estão relacionados com o post que fiz sobre a Unicef, e mais não digo.

    Alianças e fato do noivo servem às mil maravilhas, e na semana que vem a Irina tem a primeira prova do vestido. Eu já pareço um homemzinho.

    Fotógrafo não haverá. Ou melhor, não haverá fotógrafo profissional XPTO contratado para o efeito, mas haverá com certeza um fotógrafo mais ou menos amador em cada convidado (bring the fucking cameras). Entre eles estará um fotógrafo especial, munido de uma Kodak Junior II dos anos 50 e uma Praktica Super TL 1000 dos anos 70. E digo mais: funcionam.

    Íamos esperar até ao fim para tratar da lua-de-mel e ver se apanhávamos alguma pechincha de última hora, mas como o orçamento também não é muito grande não se justifica. Vamos para Paris. Soa a cliché? Soa, mas não vai deixar de ser espectacular.

    Faltam-nos um livro de honra, que eu pensava que fosse facílimo arranjar um moleskine e personalizar, e gravar umas músicas para o pessoal córtir.

    A lista de convidados parece ter estabilizado nos 83 convidados, salvo desistências ou aparições de última hora. A propósito, muita gente ainda nos tem perguntado o que oferecer, o que precisamos, se há lista de casamento, etc. Com toda a honestidade do mundo: não precisamos de mais nada senão guito. Dêem-nos GUITO. GUITO!

    Bom, faltam um mês e pouquíssimos dias para o grande dia, e vou dar aqui conta do que se passa aí na street.

    Na semana passada tivemos mais uma vez na quinta do pavão, e escolhemos a ementa, o bolo e a decoração das mesas. O serviço em si ainda não foi prestado, mas até agora estamos muito satisfeitos com o atendimento, disponibilidade e boa-vontade do Sr. Hélder e família, e temos quase a certeza que vai tudo correr bem.

    O tema vai ser cidades e locais que fazem parte da nossa história, com uns textos da minha autoria ou citações soltas em cada mesa.

    Ontem ligaram-me de uma transportadora a dizer que tinham uma entrega para mim mas não encontravam a minha rua no GPS. Eram os brindes do casamento, que já estão cá por Portugal mas só vão conseguir entregar no sábado. Eles estão relacionados com o post que fiz sobre a Unicef, e mais não digo.

    Alianças e fato do noivo servem às mil maravilhas, e na semana que vem a Irina tem a primeira prova do vestido. Eu já pareço um homemzinho.

    Fotógrafo não haverá. Ou melhor, não haverá fotógrafo profissional XPTO contratado para o efeito, mas haverá com certeza um fotógrafo mais ou menos amador em cada convidado (bring the fucking cameras). Entre eles estará um fotógrafo especial, munido de uma Kodak Junior II dos anos 50 e uma Praktica Super TL 1000 dos anos 70. E digo mais: funcionam.

    Íamos esperar até ao fim para tratar da lua-de-mel e ver se apanhávamos alguma pechincha de última hora, mas como o orçamento também não é muito grande não se justifica. Vamos para Paris. Soa a cliché? Soa, mas não vai deixar de ser espectacular.

    Faltam-nos um livro de honra, que eu pensava que fosse facílimo arranjar um moleskine e personalizar, e gravar umas músicas para o pessoal córtir.

    A lista de convidados parece ter estabilizado nos 83 convidados, salvo desistências ou aparições de última hora. A propósito, muita gente ainda nos tem perguntado o que oferecer, o que precisamos, se há lista de casamento, etc. Com toda a honestidade do mundo: não precisamos de mais nada senão guito. Dêem-nos GUITO. GUITO!

  • Benjamim

    Este, que foi o segundo livro escrito por Chico Buarque, não me entusiasmou particularmente. Estou fazendo o roteiro das produções literárias do Chico Buarque ao contrário, e dá para notar que enquanto escritor ele foi efectivamente evoluindo ao longo do tempo (como em Leite Derramado, de que já falei aqui).

    Benjamim Zambraia é um ex-modelo fotográfico que vive obcecado com o passado e com a enigmática morte da mulher da sua vida, que entretanto se materializa numa jovem que conhece ao acaso, e que em tudo lhe lembra a outra. A história é narrada tanto sob a perspectiva de Benjamim quanto de uma câmera invisível que o personagem utiliza desde a adolescência, e da qual já não consegue distinguir o que é seu e o que é gravado, o que é passado e o que é presente.

    Não chego a me fascinar com a história nem me compadecer da angústia de nenhum dos personagens principais do livro. É no entanto, bastante original e muito bem escrito, e consegue nos agarrar à leitura por aí,  ficando na retina parágrafos como este:

    A contragosto, Ali saiu da padaria e foi conduzido pelo primo até uma rua escura, transversal. “Olha as putas”, disse o primo, olhando aquelas mulheres que fumavam, cada qual dona de um poste. Gargalhou até ver sua mãe, apoiada no terceiro poste da calçada esquerda, de piteira. Ainda tentou recusá-la, porque aquele vestido de lantejoulas não era dela, nem ele nunca vira sua mãe fumando, mas o primo olhava para ele e para a mãe ao mesmo tempo, e ria de um modo tão forçado, que a Ali só restou cerrar os punhos e partir para cima dele e chutá-lo e xingá-lo de veado. O primo não sentiu a violência das porradas, muito menos do insulto;  entortou uma perna sobre a outra, espetou o queixo com o indicador, depois armou um biquinho que condensou o seu buço, fazendo com que ele parecesse uma mocinha de bigodes negros. O primo gostou do insulto porque era veado mesmo, conforme Ali ficou sabendo tempos depois. Ali tinha então cinco anos e não sabia muito bem o que significava ser veado. Tampouco sabia o que fazia de errado uma puta, fora fumar no poste. Mas já tinha a certeza de que, no mundo inteiro, pior que veado, maconheiro, dedo-duro e tudo o mais, a pior situação na vida é ser um filho-da-puta.

    Fica a curiosidade para assistir ao filme homónimo, que proporcionou a estreia da Cléo Pires como actriz, e logo num enredo pesadíssimo destes, com violação pelo meio e tudo o mais. Até é de esperar que, dada a narrativa, a coisa funcione melhor em ecrã. Fica pra pensar.

  • The Rum Diary

    Gosto muito quando tenho a oportunidade de ler um livro antes da sua adaptação cinematográfica, e neste caso isso aconteceu por pouco.

    Tinha-o na prateleira há algum tempo, e acelerei a sua leitura assim que notei que The Rum Diary vai estrear no ano que vem, com Johny Depp mais uma vez à cabeça de um filme originário de um livro de Hunter S. Thompson, depois do alucinante Fear and Loathing in Las Vegas.

    A história é relativamente simples e, como de costume, em parte baseada na experiência do próprio autor: Paul Kemp, um jornalista freelancer trintão que já percorreu meio-mundo sem conseguir encontrar o seu caminho, aterra em Porto Rico e consegue emprego num jornal de língua inglesa de meia-tigela, constantemente à beira do abismo. Tudo o que se segue são descrições da decadência, imoralidade e loucura que povoam o estilo de vida da ilha (e a mente do autor). O livro tresanda a álcool de uma ponta à outra, sempre narrado num ritmo frenético, tanto cativante e sarcástico quanto perturbador.

    Acho estranho que tenha havido tanta relutância da parte do autor em publicar este livro (escrito em 1959, viu a luz do dia em 1998), dada a quantidade de talento (e de loucura) expressa em todas as suas páginas. De notar que só tinha 22 anos quando o escreveu, mas captou com uma grande mestria todo o pessimismo das suas personagens.

    Na minha imaginação, este livro dá um grande filme. É de estranhar a ausência de Yeamon no casting listado no IMDB, dado ser uma das suas personagens principais, mas vou esperar para ver. Não conheço o trabalho deste Bruce Robinson, esperemos que não decepcione com este material brilhante nas mãos (ficava mais descansado com o Terry Gilliam a dar continuidade ao Fear and Loathing, mas fica pra pensar).

    Gosto muito quando tenho a oportunidade de ler um livro antes da sua adaptação cinematográfica, e neste caso isso aconteceu por pouco.

    Tinha-o na prateleira há algum tempo, e acelerei a sua leitura assim que notei que The Rum Diary vai estrear no ano que vem, com Johny Depp mais uma vez à cabeça de um filme originário de um livro de Hunter S. Thompson, depois do alucinante Fear and Loathing in Las Vegas.

    A história é relativamente simples e, como de costume, em parte baseada na experiência do próprio autor: Paul Kemp, um jornalista freelancer trintão que já percorreu meio-mundo sem conseguir encontrar o seu caminho, aterra em Porto Rico e consegue emprego num jornal de língua inglesa de meia-tigela, constantemente à beira do abismo. Tudo o que se segue são descrições da decadência, imoralidade e loucura que povoam o estilo de vida da ilha (e a mente do autor). O livro tresanda a álcool de uma ponta à outra, sempre narrado num ritmo frenético, tanto cativante e sarcástico quanto perturbador.

    Acho estranho que tenha havido tanta relutância da parte do autor em publicar este livro (escrito em 1959, viu a luz do dia em 1998), dada a quantidade de talento (e de loucura) expressa em todas as suas páginas. De notar que só tinha 22 anos quando o escreveu, mas captou com uma grande mestria todo o pessimismo das suas personagens.

    Na minha imaginação, este livro dá um grande filme. É de estranhar a ausência de Yeamon no casting listado no IMDB, dado ser uma das suas personagens principais, mas vou esperar para ver. Não conheço o trabalho deste Bruce Robinson, esperemos que não decepcione com este material brilhante nas mãos (ficava mais descansado com o Terry Gilliam a dar continuidade ao Fear and Loathing, mas fica pra pensar).

  • A ponte dos que não foram

    Sentimentos ambíguos me assolam quando penso na Câmara de Almada.

    Se o concelho sofreu uma evolução brutal desde que vim para cá, e dando de barato que o ritmo não foi nem de perto nem de longe o mesmo em todas as freguesias, há certas coisas que me custam compreender.

    Estudei 6 anos na FCT, e antes disso estive nos 3 anos que estive na EPED, já lá ia almoçar. Fui trabalhar para o Madan Parque logo após a sua abertura.

    Sempre tive que atravessar o pedaço que liga a actual localização do Madan Parque à porta lateral que dá entrada à FCT. Sem passadeira e com carros a circular dos dois sentidos, o trajecto não é propriamente seguro, de facto. Decidiram fazer uma ponte pedonal a ligar a FCT ao Madan; até aqui tudo bem.

    Agora, expliquem-me uma coisa: como é que uma ponte que liga a faculdade ao Madan Parque… não vai dar ao Madan Parque? Ninguém que trabalha no Madan Parque e se desloca à FCT vai dar uso a essa ponte. A ponte beneficia um ou dois alunos que estejam alojados nos prédios que estão virados para a ponte e pouco mais.

    A figura acima (em que ainda não existia a dita ponte) ilustra o cenário: os círculos verdes identificam as portas da faculdade e do Madan, e a linha verde o caminho normal. A linha vermelha representa a ponte, que vai dar nas traseiras do edifício de informática, e termina nos prédios da entrada do Monte, não no Madan.

    Ainda que possam existir argumentações a favor desta ponte, ou dificuldades de ordem técnica que impedissem que a ponte que liga a FCT ao Madan Parque fosse mesmo dar ao Madan Parque, então… para quê fazer ainda assim a ponte, se ela não cumpre o objectivo a que se destina? Pintar uma passadeira no chão não teria o mesmo efeito e seria muito mais barato? (Nomeadamente mais barato que os 125.366,47 € da execução + os 12.500€ do estudo)

    Mesmo que existam respostas às perguntas anteriores, e em relação à ponte ter estado trancada vários meses após a sua conclusão? Tirei a foto acima a um cidadão que experimentava a ponte uns dias após a conclusão da obra, em Janeiro deste ano, e a seguir a isso… trancas nas portas. Porquê vedar um acesso acabado e disponível?

    A esta pergunta eu acho que consigo responder: na revista municipal deste mês, é dado imenso destaque às iniciativas da semana verde. Entre elas estão… a inauguração da ponte FCT-Madan Parque, à qual foi dado o pomposo nome de “bicilink”. Impede-se a já de si fraca utilização que a ponte teria durante meses, para fazer uma inauguração de encher chouriços, em mais uma inócua iniciativa da apregoada mobilidade/sustentabilidade/verdura whatever.

    Fica pra pensar.