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  • Cemitério de Pianos

    Demorei demais para ler um livro do José Luís Peixoto, e não precisaria ler mais para dizer que este Zé é dos melhores escritores da sua geração, da atualidade e de toda a língua portuguesa.

    Cemitério de Pianos parte de uma história real, a de Francisco Lázaro, maratonista português que desfalece em Estocolmo depois de untar o corpo com sebo, e magica todo um intrincado e recursivo enredo familiar à sua volta, todo ele a saltar constantemente entre a leveza da vida e o peso da morte (ou a leveza da morte e o peso da vida). Confudem-se narradores, tempos e histórias, mostrando que no fim de contas, tudo se mistura ou se repete.

    A originalidade da história é complementada com a originalidade do estilo da escrita do artista, que é arcaica sendo moderna, cheia de jogos de linguagem que tanto nos deixam desorientados quanto nos desarmam, culminando numa prosa comovente, de tão bela.

    Fica pra ler mais.

  • Recado para alguém no futuro #6

    Hoje pintamos o teu quarto. O pintamos é abuso de linguagem, porque quem fez o “trabalho sujo” foi o teu avô Armando. Hás-de ver que o talento do teu pai escapou para outras áreas.

    A Dyrup diz que a cor é rosa morango; não sei onde entra ali o morango, mas que está lindo, está.

    Preciso muito de ti lá dentro. Mas não te apresses. Eu espero.

  • Rockabye Baby

    Um bom pai deve tentar incutir algum gosto musical na sua filha.

    Já tinha ouvido falar da coleção Rockabye Baby há algum tempo, mas só agora, por motivos óbvios, é que prestei a devida atenção ao assunto.

    Ficam aqui, até agora, algumas das minhas preferidas. Filha, já ouviste Guns’n’roses e aparentemente gostaste!

    Guns’N’Roses – Sweet Child O Mine

     

    Metallica – Nothing Else Matters

     

    Kanye West – Stronger (o estilo do urso da capa deste arrebenta)

    Queen – Bohemian Raphsody

    Red Hot Chili Peppers – Under the Bridge

    Led Zeppellin – Stairway to Heaven

  • Recado para Alguém no Futuro #5

    Chamas-te Carolina de Oliveira Cardoso. Espero que gostes do nome, vai te acompanhar por toda a vida.

    Tens mesmo qualquer coisa de especial, porque meteste os teus pais, os mais forretas das respetivas famílias, com uma ânsia de ir correndo ao centro comercial comprar prendas para ti.

    PS: Muito obrigado por teres acedido ao pedido do recado anterior!

  • Recado Para Alguém no Futuro #4

    Ontem ouvimos o teu coraçãozinho a bombar, mais uma vez, na consulta da Dra. Emília. É sempre lindo.

    Andas a conquistar o teu espaço: a barriga da tua mãe cresceu 7cm desde a última vez. Já senti mais que uma vez os teus primeiros pontapés, mas tipicamente páras quando meto a mão. Peço-te que em vez de parares, ainda dês com mais força, pode ser?

    O teu país cada vez merece menos a tua vinda, mas por enquanto permanecemos teimosos, e és tu o nosso alento.

    Não vejo a hora de chegar a próxima segunda-feira, para poder dizer o teu nome no próximo recado..

  • RIP Michael Clarke Duncan (1957-2012)

    Proporcionaste-me um momento único, no The Green Mile: foi das poucas vezes que vi a minha mãe chorar.

  • Aprendendo

    Na semana passada obtive o ccp (antigo cap), no centro de formação Nova Etapa. No geral o curso foi bastante positivo, sendo de destacar o talento e a dedicação do excelente formador Nuno Silva, e as diversas dicas que foi dando nas entrelinhas. Deixo aqui um excelente texto de Agostinho da Silva com que ele nos brindou, na despedida:

    Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles foram meus, não são seus.

    Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim não teríamos talvez dois corpos distintos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição, venha a pensar o mesmo que eu; mas, nessa altura. já o pensamento lhe pertence.

    São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem.”

    Fica pra pensar.

  • MPB-3

    No dia 8 deste mês morreu o Magro, um dos eternos integrantes do grupo vocal MPB-4.

    Empobrecidos, no sábado seguinte cantaram pela primeira vez em público sem o amigo, no que Miltinho definiu “como um salto sem rede”, que abriu com a magnífica “Porto”, de Dori Caymmi.

    Os meus quatro momentos preferidos do percurso dos MPB-4 são estes:

    Roda-Viva, de (e com) Chico Buarque, uma das mais belas músicas já escritas em português. Tem a particularidade de ter sido escrita para a peça com o mesmo nome, que na altura teve o seu cenário destruído e seus atores espancados pelo CCC, apesar de nem ter nada a ver com comunismo.

    Partido Alto, também de Chico Buarque e já reavivada por muitas outras vozes, mas que ganha derradeiro sentido na interpretação dos quatro magníficos.

    A belíssima e simples Lua, de que me lembro sempre que está lua cheia, e que vai ser muito boa para cantar para a minha filha.

    E De Frente pro Crime, de João Bosco, uma brilhante e animada narração de um assassinato e da indiferença que provoca nos que o presenciam.

    Obrigado, Magro.

  • The Dark Knight Rises

    Como nos anteriores, tinha muitas expectativas para este último filme do Nolan sobre a mitologia do Batman, e só não o acho um grande filme porque há meia hora a mais nas 2h30 que o compõem.

    Essa meia-hora a mais são alguns devaneios de acção, deixas “cómicas” demasiado forçadas e uns twists que não o chegam a ser, mais para o final. Serve para agradar de forma transversal a mais tipos de audiência, mas a mim deixa um certo amargo de boca.

    Tirando essas picuices, o filme tem argumentos de sobra para prender a atenção do espectador, abordando simultaneamente diversos temas angustiantes que afligem a nossa sociedade, como o terrorismo e os falsos messias, o declínio económico e o potencial incendiário que os 1% causam (em nós) nos outros 99, a inversão dos nossos valores morais, e por aí vai.

    Gotham vive em paz há quase uma década, e durante esse período o Batman nem precisa sequer dar as caras (nem convém, porque é acusado de homicídio do Harvey Dent). Esta paz está alicerçada numa lei repressiva e com falsos pressupostos, que permite que todo e qualquer suspeito de crime seja colocado atrás das grades.

    Como toda a paz podre, esta é deitada por terra com a entrada em cena de um vilão, Bane, que além de portador de um tremenda força bruta é extremamente inteligente e um líder carismático, capaz de incitar os seus seguidores à morte, de sorriso nos lábios.

    O meticuloso plano de Bane para fazer ruir Gotham inclui a libertação dos seus criminosos e o cárcere dos seus policiais, a destruição da fortuna dos seus milionários através da apropriação da bolsa de valores, e a manipulação das massas, tentando-lhes fornecer uma ilusão de “devolução do poder ao povo”, uma espécie de Robespierre dos tempos modernos. Pelo meio o Batman, além de vencido, é torturado com a não-morte, e a obrigação de presenciar impotente a queda da cidade que protegia.

    Não fornecendo um veículo de interpretação tão poderoso quanto o que propiciou a encarnação do Joker no Heath Ledger no último filme, temos um vilão muito competente e coadjuvantes excelentes, como a ladra profissional e o polícia novato a quem o Batman tem que se agarrar no meio do caos, nomeadamente a Hathaway numa excelente Catwoman e o Gordon-Levitt como Blake.

    Mais uma vez, este realizador encontrou mesmo a fórmula para isto, de encontrar equilibrio entre agradar às massas e ao mesmo tempo fazer filmes de qualidade, metendo-as a pensar. Isso é que é preciso.

  • The Raid Redemption

    Este filme serve para quebrar um bocado o tom lamechas que tem imperado por aqui, sendo uma brutal demonstração de acção e violência levada a cabo por uns indonésios que nos fazem o imenso favor de demonstrar que ainda há lugar para os bons e velhos filmes de artes marciais.

    A premissa é simples: uma força policial especial é chamada a intervir num edifício onde impera a lei de um barão da droga, mas descobre rapidamente (e da pior forma) que está entregue à sua própria sorte, pois a missão é tudo menos oficial e visa apenas servir o seu mandante, que é corrupto até ao tutano.

    De andar em andar a acção vai se centrando em Rama, um policial honesto prestes a ser pai, e que vai se valendo dos seus dotes de lutador para garantir a sobrevivência. E que lutador! O maior elogio às cenas de luta é que elas doem, e muito, só de serem vistas. Pelo meio ainda um enredo clássico de dois irmãos do lado errado da lei, e a dita cuja redenção.

    Completamente diferente do filme de que falei antes, mas que também me prende pela originalidade num género maltratado. Aguarda-se o remake parvo americano.