Y.

Estão falando alto, pelos botecos.

Etiqueta: cinema

  • This Must Be The Place

    Parece que não fez grande sucesso, mas eu gostei muito deste primeiro filme em inglês do Paolo Sorrentino. De quase tudo, mas principalmente da originalidade da história. Sean Penn encarna e bem a figura ridícula de Cheyenne, uma estrela de rock reformada, desiludida e completamente desapegada do mundo atual. Após a morte do pai, descobre que este passou a vida inteira à procura do seu torturador nazi, e decide retomar essa perseguição.

    Um ponto de partida que parece absurdo mas que é bastante mais plausível do que possamos pensar à primeira vista, o que vamos vendo enquanto vamos acompanhando a jornada e remoendo os fantasmas do passado, da família e do showbiz, sem grandes dramas ou moralismos.

    Os road movies andam a fazer falta. E a música que lhe dá nome não me sai da cabeça.

     

  • Capitães da Areia

    Não acho que este filme faça de todo jus à obra-prima de Jorge Amado nem ao cinema Brasileiro, mas não deixa de ser entretenimento saudável.

    Salientando que não é um mau filme, e que é de louvar a (não inédita e comprovadamente bem sucedida) opção por adolescentes de ONG’s para protagonizarem-no, não é marcante nem mágico, é apenas uma sucessão competente de alguns dos elementos base do livro e das diferentes estórias que o compõem, com uma realização segura mas sem chama, muito à moda de videoclipe ou spot publicitário para o meu gosto.

    Além dos jovens atores, quem está de parabéns é o Carlinhos Brown e a banda-sonora que, essa sim, acaba por acrescentar muito ao filme. Mas a conclusão maior que fica é… leiam o livro, se ainda não o fizeram.

  • Intouchables

    Um filme com temática bem mais ligeira do que aquele do qual falei anteriormente, mas tão ou mais brilhante dentro do seu género.

    Um jovem senegalês acabado de sair da prisão procura apenas comprovativos de entrevistas para receber o subsídio de desemprego, mas torna-se quase a contragosto auxiliar de um milionário quadriplégico. Aos trancos e barrancos vão desenvolvendo uma grande amizade, e acabam por mudar as vidas um do outro.

    As melhores qualidades desta comédia são a sua espontaneidade (é difícil de acreditar que o ator Omar Sy não seja mesmo assim na vida real) e a desdramatização, a forma natural e desprendida com que se tratam de assuntos delicados, conseguindo emocionar-nos sem recurso a demasiados clichés ou frases forçadas. Não brincar com assuntos sérios pode ser muito mais desrespeitador do que fazê-lo.

    Não dou muito tempo até que surja um remake parvo de Hollywoood…

  • We need to talk about Kevin

    Surpreendido com o primeiro filme que vejo desta realizadora escocesa.

    Kevin é um dos fantasmas dos tempos modernos, um jovem sociopata autor de um massacre na sua escola secundária. O filme alterna entre o limbo em que a sua mãe vive no presente, e o mosaico de memórias e culpas que carrega do passado, durante o crescimento da criança, e mesmo antes do seu nascimento, quando ela não o desejava.

    Falta de amor, de acompanhamento? Ou inevitavelmente o miúdo iria tornar-se um monstro? Não há respostas, até porque o filme é um exercício quase completamente visual, com poucos diálogos e com muito mais violência psicológica do que física (o massacre nunca é verdadeiramente mostrado, por exemplo).

    Uma Tilda Swinton destroçada de forma espetacular, o puto Ezra Miller a cumprir o seu papel de forma absolutamente perturbadora e o resto é trabalho de realização e cinematografia para compor o ramalhete de uma obra bastante interessante.

  • J. Edgar

    Depois do duvidoso Hereafter, este biopic sobre o polémico pioneiro diretor do FBI mostra que o Clint Eastwood não entrou em espiral descendente. Não sendo um filme arrebatador, é um retrato interessante de uma figura bastante polémica, brilhantemente interpretada pelo DiCaprio.

    Com tanto material e especulação à volta do homem, seria muito fácil ao realizador enveredar pelos caminhos da glorificação da personagem ou das teorias da conspiração, mas o que vemos é um retrato que não toma qualquer posição, mostrando simplesmente o percurso atribulado de um ser humano complexo, tanto ambicioso e egocêntrico quanto inseguro e anti-social.

    Só acho que se insiste um bocado em demasia na dúvida do closet case (no popular, bicha enrustida) que ele seria, mas não faz com que deixem de ser duas horas bem passadas.

  • The Girl With The Dragon Tattoo

    O género thriller está bem e recomenda-se, com mais um bom exemplar da espécie neste The Girl With The Dragon Tattoo, adaptação do primeiro livro da trilogia Millenium, do sueco Stieg Larsson.

    Um famoso jornalista une-se a uma sombria e problemática hacker, na investigação ao desaparecimento de uma adolescente há 40 anos atrás, a pedido do milionário tio desta.

    À medida que se embrenham no passado e vão descobrindo os podres da família, o caso vai se tornando mais bicudo, sempre a um ritmo frenético, só temperado pelo tom extremamente sombrio (quase a preto e branco) com que foi filmado.  E ao contrário do “filme do facebook”, gostei muito do trabalho do Trent Reznor na banda-sonora deste.

    Além de ser a adaptação do livro, o filme é também um remake, de um filme sueco recente que já tinha agarrado na coisa. É criticável? Pode ser (e é, por muita gente), mas repito a opinião que já formulei aqui mais que uma vez, a ser feito assim, de forma competente e com qualidade, só pode ser considerado positivo e vinha fazendo falta em Hollywood, o Fincher que continue a explorar o filão dos blockbusters decentes…

  • Warrior

    Esqueçam The Wrestler, esqueçam The Fighter, Warrior é o melhor filme sobre lutas desde Million Dollar Baby.

    Um pai/treinador alcoólatra (standard Nick Nolte) e dois irmãos a lutarem para tentar ganhar um torneio de Mixed Martial Arts em busca de redenção/honra a demonstrarem o quanto um bom e velho cliché sempre tem lugar, quando nas mãos certas.  E que o Tom Hardy tem tudo para ser um grande Bane no próximo Batman.

    Acho que nunca se julgou que uma história sobre MMA podia deixar tanta gente de lágrima no olho.

  • The Rum Diary

    Já tinha aqui dito o quanto ansiava por ver este filme,depois de ter lido o livro. O resultado dessa expetativa? Bom, positivo ele é. O filme é engraçado, entretém, o cenário e o ambiente estão bem conseguidos (ainda que não tão exóticos e excitantes quanto descritos no livro), mas fica na boca aquele gosto de quero mais.

    Dando de barato que o estilo de escrita do Hunter S. Thompson é dos mais complicados de se adaptar ao cinema ou ao que quer que seja (o Fear and Loathing in Las Vegas é melhor, mas não é brilhante), fico com a sensação que o material dava azo a que se fizesse melhor.

    Foi omitido um personagem brutal (Yeamon), o que tomou algum do seu lugar é meio insonso (Sanderson) e fez com que algumas cenas essenciais se ressentissem, nomeadamente e sem revelar demasiado a quem não viu, a prisão e o carnaval. Faltaram a estas essencialmente o desvario com que Thompson incendiou o livro.

    Por fim, não posso deixar de referir duas coisas. A primeira é uma metáfora utilizada por uma das personagens, que diz que, querendo construir 10 hotéis (ou algo parecido), diz primeiro à população que irá construir 100, depois “negoceia”, “cede” a fazer só 10, e passa por benevolente. Isto é uma receita antiga, e exatamente aquilo que contínua e diariamente tem sido feito ao povo português.

    A outra é que a Amber Heard… até me esqueci o que ia dizer. Fica pra pensar.

  • La piel que habito

    Glorioso regresso do Banderas ao colo do pai Almodovar, que apresenta aqui o seu melhor filme desde Hable con Ella. É menos chocante e “terrorífico” do que foi propagandeado, mas ainda assim, um thriller daqueles.

    O Banderas é um renomado cirurgião plástico que, desde que a mulher se suicidou após ter tido o seu corpo completamente queimado num acidente de viação, dedica o seu tempo a tentar desenvolver um novo tipo de pele humana, mais resistente do que a original. Para esse efeito, mantém cativa como cobaia na sua mansão uma mulher, completamente controlada pelo doutor e pela sua fiel governanta.

    Além da tragédia da viuvez, descobrimos em seguida que a filha de ambos também cometeu suicídio após ter sido vítima de violação. Esta sequência de acontecimentos do passado e do presente vai sendo apresentada de forma intercalada, até termos lentamente todas as peças do complexo puzzle em que as personagens estão envolvidas, sendo tudo isto temperado com ingredientes que Almovodar habitualmente utiliza (mães/mulheres a ditar o rumo do enredo, pais/infâncias problemáticas), mas de uma forma muito mais sóbria (menos melodramática).

    Juntem-se a isto brilhantes interpretações e uma banda-sonora excelente como do costume e, a par do Drive, o filme de 2011 que mais gostei, até agora.

  • Filme do Desassossego

    Antes de mais, é preciso ter tomates e muita criatividade para adaptar um livro destes. Felizmente o João Botelho teve os dois. Um livro que não é bem um livro deu num filme que não é bem um filme, um desfile de personagens ridículas em momentos oníricos, espelhando na Lisboa actual os devaneios e fragmentos de uma mente brilhante numa outra Lisboa.

    É claro que é difícil conferir visibilidade a um filme destes, mas é um enorme prazer ouvir as declamações do brilhante texto pessoano, e assistir a cada um dos momentos musicais (sem eles o filme não seria tão bom), começando desde logo com o Manuel João Vieira a atropelar o Aznavour, do qual deixo o curto excerto que está no youtube, mais o da Carminho, que com certeza toca.

    Assim de cabeça, dos filmes portugueses de que mais gostei.