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O que não tem governo nem nunca terá.

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  • A Odisseia

    Ponto número um: o filme é, sim, imperdível, mesmo que no fim não se goste dele. Quanto mais não seja pelo hype. Não o hype “de hoje em dia”, de estar nas redes sociais e querermos perceber os memes, mas aquela velha sensação de outros tempos, de quando estreava um verdadeiro blockbuster, como um Titanic da vida ou um derradeiro episódio de novela da Globo, e de todos, em comunhão, termos um tema para comentar no mundo real. Sinto que isso é uma raridade.

    Eu adorei, sob vários ângulos. Aborrece-me que se critique faltar este ou aquele aspecto da obra original, ou esta personagem ser desta ou daquela cor. É uma adaptação, são simplesmente actores, é uma obra de entretenimento e não um documentário (de qualquer das formas, seria estranho haver um documentário que incluísse sereias e ciclopes).

    Dizer que “são simplesmente actores” é redutor – são tremendos actores e actrizes, todos, e há pequenos momentos simplesmente brilhantes com personagens principais e secundárias.

    Em vários outros aspectos, onde realmente interessa, o realizador empregou um cuidado imenso para que o filme fosse verdadeiramente uma obra de arte. A banda sonora, por exemplo, é feita com recurso a réplicas de instrumentos da época, e é completamente diferente de tudo o que já ouvimos em filmes épicos. É neste tipo de coisas que reside a esperança na criatividade humana – uma inteligência artificial qualquer da vida pegava nisto e fazia uma mistela decalcada de filmes do Hans Zimmer.

    Acho que vale a experiência em IMAX, quanto mais não seja porque foi para ela que o filme foi pensado e “prensado” minuciosamente. Nota mental e à parte para mim: fazer um jejum de líquidos da próxima vez que for ver um filme de 3 horas sem intervalo. Senti-me o próprio Odisseu, em sofrimento e amarrado ao mastro, com a vontade de ir ao WC na recta final do filme.

    O recurso a efeitos especiais também foi reduzido ao mínimo (e não faltaram oportunidades para esticar essa corda ao máximo), o que não reduz a espectacularidade, só a aumenta. Há uma cena em particular que se torna ainda mais surreal depois de sabermos a forma tão artesanal como foi feita.

    Um artesão do cinema é, de facto, o que podemos chamar a Chris Nolan, e é dos poucos que se pode dar a esse luxo hoje em dia.